Vulnerabilidades humanas, sistemas obsoletos e prejuízos milionários; especialista analisa o caso que chocou Paris e explica por que até as instituições mais seguras podem ser vítimas da própria rotina
Por Fernanda Ferreira
O recente roubo no Louvre, o maior museu de arte do mundo e um dos mais visitados do planeta, revelou uma vulnerabilidade que parecia impensável para uma instituição desse porte: a senha do sistema de vigilância era simplesmente “Louvre”. Segundo relatórios divulgados pela imprensa francesa, além da fragilidade na autenticação, o sistema era obsoleto e não passava por atualização havia mais de uma década.
O caso acendeu um alerta global sobre como as organizações podem se tornar vulneráveis quando negligenciam práticas básicas de segurança. Falhas humanas, protocolos desatualizados e uma falsa sensação de invulnerabilidade continuam sendo os maiores inimigos da proteção física e digital.
Para entender o que o episódio revela sobre a cultura de segurança e quais lições podem ser aplicadas por gestores e instituições de todos os portes, conversamos com Ueric Melo, Gerente de Desenvolvimento de Negócios de Cibersegurança na Genetec, empresa referência em soluções de segurança, inteligência e operações.
Revista Segurança Eletrônica: O roubo no Louvre surpreendeu o mundo não só pelo crime em si, mas pela simplicidade da falha: uma senha previsível e um sistema sem atualização há anos. Na sua visão, por que ainda vemos erros tão básicos em instituições desse porte?
Ueric Melo: Apesar de não haver evidências concretas de que essas vulnerabilidades foram exploradas no roubo, o fato de elas existirem e estarem documentadas desde 2014 revela um problema que vai além do uso da tecnologia, é uma questão de comportamento e cultura organizacional.
Muitos profissionais ainda enxergam e tratam os sistemas de segurança física da mesma forma que anos atrás, quando essas soluções eram expostas apenas ao seu ecossistema, e limitadas ao propósito original de sua criação. Uma câmera, por exemplo, somente capturava imagens que eram transmitidas por um cabo que, via de regra, trafegava exclusivamente as imagens de uma única câmera em uma ligação direta de ponta a ponta. Na outra extremidade desses cabos, ficavam os equipamentos que combinavam as imagens das câmeras em um mosaico ou em sequência (sequenciais, quads, multiplexadores, etc.) e um gravador de mídia, geralmente fita VHS. Atualmente a situação é completamente diferente. Câmeras são utilizadas por diversos departamentos para múltiplas finalidades, e possuem mais poder computacional do que a maioria dos computadores de alguns anos atrás. Informações precisam ser acessadas em tempo real e de qualquer lugar. Toda essa evolução, a filosofia “set and forget – defina e esqueça”, o baixo nível de conhecimento da superfície de ataque e a falta de priorização adequada de vulnerabilidades e agentes de ameaça, são alguns dos fatores que influenciam essa negligência de ações que deveriam ser tão básicas, o que nos leva a situações em que instituições que protegem tesouros inestimáveis adotam a mesma mentalidade de segurança de décadas atrás, enquanto as ameaças evoluíram exponencialmente.
Revista Segurança Eletrônica: O caso mostra que, muitas vezes, o problema não está na falta de recursos, mas na falta de atenção a procedimentos básicos. Como a cultura organizacional influencia diretamente a eficácia da segurança?
Ueric Melo: A palavra-chave aqui é cultura, e não apenas a organizacional. Quando falamos de cultura de segurança, seja ela física ou cibernética, o fator humano é o ponto central, já que cultura não é algo que pode ser simplesmente instituído por políticas e ferramentas, ela precisa ser cultivada.
Quando um indivíduo, em sua vida pessoal, não percebe a importância de usar senhas fortes e trocá-las periodicamente, de adotar autenticação multifator, de confirmar a identidade de prestadores de serviço antes de autorizá-los a entrar em sua casa, ou mesmo de descartar adequadamente correspondências e embalagens de encomendas, dificilmente ele enxergará o devido valor dessas ações no ambiente corporativo.
No contexto organizacional, essa lacuna cultural pode se manifestar de diversas formas, com equipes que veem políticas de segurança como burocracias desnecessárias, gestores que priorizam funcionalidades em detrimento de atualizações de segurança, ou até mesmo a tolerância com práticas inseguras “porque sempre foi assim”.
É por isso que a construção de uma cultura de segurança efetiva começa muito antes das políticas corporativas, ela começa na conscientização individual e se reflete em cada decisão do dia a dia.
Revista Segurança Eletrônica: A Genetec é reconhecida por promover o conceito de segurança unificada. Em linhas gerais, o que diferencia essa abordagem de uma arquitetura tradicional, onde cada sistema opera de forma isolada?
Ueric Melo: O principal diferencial de uma abordagem de segurança unificada está no fluxo de informações. Em um ambiente onde diferentes sistemas são usados de forma isolada, os dados gerados por cada um deles se tornam menos valiosos por não carregarem consigo informações que contemplem todo o contexto disponível. E mesmo em casos em que é desenvolvida uma integração para a troca de informações entre sistemas, cada um deles foi desenvolvido com um conceito, estratégia e objetivo específico. Quando tentamos forçar um sistema a consumir dados de outra disciplina para a qual não foi projetado, não necessariamente enriquecemos o contexto, além de introduzirmos riscos operacionais, como pontos adicionais de falha, comprometimento da continuidade operacional, dificuldade de sustentação, introdução de novas vulnerabilidades, além de não resolver o fato de que, apesar da troca de dados, os sistemas ainda operam em silos em sua essência.
Em contrapartida, uma plataforma unificada prevê o fluxo de informações e operacional, desde sua concepção. Isso proporciona muito além da simples troca de dados: permite entender como esses dados se correlacionam e se complementam, entregando indicadores com valor real para operadores e administradores, além de oferecer um único ponto de contato entre plataforma e usuário.
Revista Segurança Eletrônica: Quando essa integração é aplicada na prática, reunindo câmeras, controle de acesso e sensores em uma única plataforma, quais ganhos imediatos ela oferece ao gestor de segurança e às equipes de operação?
Ueric Melo: O ganho mais evidente desde o dia 1 é o aumento da consciência situacional. Um único evento, de qualquer uma das disciplinas gerenciadas pela plataforma unificada, já traz consigo o contexto necessário para uma tomada de decisão mais assertiva. Não é necessário alternar entre múltiplas interfaces buscando informações relevantes durante o tratamento de um incidente, nem fazer correlações manuais no processo de investigação. Isso se traduz diretamente em ganho de eficiência operacional, permitindo uma redução drástica no tempo de resposta a incidentes, de tarefas de investigação e até na compilação de lições aprendidas, que podem entregar indicadores de previsibilidade baseados em informações históricas.
Já para os gestores de segurança, os ganhos vão além. Uma solução unificada oferece a visibilidade completa da operação em tempo real, o que facilita a gestão de recursos (técnicos e humanos), simplifica treinamento e permite análises profundas de desempenho, da ferramenta, dos operadores e dos procedimentos operacionais implementados.
Além disso, um ganho menos óbvio, mas extremamente valioso é a redução da superfície de ataque e da complexidade de gestão de vulnerabilidades. Com menos sistemas para manter, atualizar e monitorar, a postura de segurança cibernética tende a melhorar significativamente.
Revista Segurança Eletrônica: A inteligência artificial já se tornou parte essencial das soluções de segurança, auxiliando na análise de vídeo, na detecção de comportamentos anômalos, entre outras estratégias. Na prática, até que ponto essas tecnologias já têm ajudado a prevenir incidentes e reduzir erros humanos?
Ueric Melo: A Inteligência Artificial já é utilizada há bastante tempo em tecnologias consolidadas na segurança eletrônica, muito antes do “boom” do ChatGPT trazer o termo de volta ao mainstream. São aplicações que já provaram seu valor operacional no mundo real.
Na prática, quando bem aplicada, a IA tem reduzido erros humanos em tarefas repetitivas e de alta carga cognitiva, assim como ajudado a reduzir o tempo de resposta a ameaças. Um exemplo clássico: operadores monitorando dezenas de câmeras simultaneamente. A IA identifica eventos relevantes e direciona a atenção do operador apenas para o que realmente importa, minimizando falhas por fadiga ou distração.
Mas o uso de IA vai muito além da visão computacional. Ela está presente na correlação inteligente de eventos de múltiplos sensores, consolidando alertas dispersos em incidentes únicos com base no contexto; na apresentação automatizada de procedimentos operacionais para o operador durante o tratamento de incidentes; em buscas usando linguagem natural durante investigações; e até na previsão de comportamento de sistemas através de gêmeos digitais, permitindo simulação de cenários antes que problemas reais ocorram.
Todos esses são exemplos de uso positivo para ganho operacional e suporte à decisão. Porém, é fundamental entender que ferramentas baseadas em IA são exatamente isso: ferramentas. Elas amplificam a capacidade humana, mas não substituem o julgamento crítico, a inteligência emocional e a capacidade de contexto que apenas seres humanos trazem para situações complexas.
Revista Segurança Eletrônica: No caso do Louvre, o uso de uma senha simples e a falta de atualização do sistema expuseram a fragilidade da operação. Que estratégias ou boas práticas de segurança poderiam ter evitado esse tipo de falha?
Ueric Melo: Além das recomendações mais evidentes, como trocar senhas regularmente e manter sistemas atualizados, é fundamental que a estratégia de segurança vá além dos softwares, englobando também dispositivos de campo como câmeras, controladoras, leitores e sensores.
O primeiro passo é ter visibilidade completa do ambiente: um inventário atualizado de todos os ativos, tanto físicos (câmeras, controladoras, painéis, servidores, switches) quanto digitais (bancos de dados, gravações, documentos). É impossível proteger o que não se conhece.
Com esse mapeamento em mãos, três pilares de proteção precisam ser implementados:
Primeiro, gestão rigorosa de acessos: senhas fortes e únicas para cada dispositivo, autenticação multifator, credenciais individualizadas e princípio de menor privilégio, garantindo que cada usuário tenha acesso apenas ao necessário para sua função.
Segundo, política consistente de atualizações e patch management para todos os componentes, não apenas sistemas centrais.
Terceiro, criptografia em toda comunicação e dados sensíveis em repouso, com gestão adequada de certificados e algoritmos, evitando o uso de tecnologias obsoletas.
Além disso, é essencial ter uma estratégia de alta disponibilidade e backup para ativos críticos, seguindo ao menos a regra 3-2-1: três cópias dos dados, em dois tipos de mídia diferentes, com uma cópia totalmente offline e em local separado.
Em um cenário real com milhares de dispositivos, aplicar essas práticas manualmente seria inviável. Por isso, a escolha de ferramentas que automatizem essas atividades é crucial, permitindo que equipes mantenham e acompanhem a postura de segurança de forma contínua, sem consumir recursos excessivos. O objetivo é tornar a segurança sustentável, não apenas uma checklist pontual.
Revista Segurança Eletrônica: Muitos gestores acreditam que, após instalar um sistema de segurança, o trabalho está concluído. Qual é a importância de ter visibilidade em tempo real sobre o desempenho e o status dos sistemas, algo que soluções como as da Genetec oferecem?
Ueric Melo: Essa mentalidade de “set and forget” é exatamente o que cria cenários como o do Louvre. Um sistema pode estar instalado e até mesmo estar funcional, mas não estar em sua “melhor forma”, e sem visibilidade contínua, essa degradação pode passar despercebida até que seja tarde demais.
Na prática, sistemas de segurança são ambientes dinâmicos e complexos. Câmeras podem estar online, mas com degradação na imagem. Discos de armazenamento podem estar disponíveis, mas com falhas intermitentes. Conexões de rede podem estar estabelecidas, mas com perda de pacotes. Sem monitoramento ativo da saúde do sistema, problemas muitas vezes imperceptíveis durante a operação podem se acumular, comprometendo a eficácia da segurança sem que ninguém perceba, até que seja tarde demais. Ter visibilidade em tempo real sobre o status e desempenho de cada componente é o que permite essa abordagem proativa, não reativa.
Para gestores, essa visibilidade se traduz em indicadores concretos, como taxas de disponibilidade, SLAs sendo cumpridos, identificação de gargalos operacionais, e até mesmo justificativa para investimentos baseada em dados reais de utilização e performance.
Revista Segurança Eletrônica: Em locais como museus, aeroportos e hospitais, há um desafio adicional: sistemas antigos convivendo com novas tecnologias conectadas. Como manter a segurança e a confiabilidade em ambientes híbridos e complexos como esses?
Ueric Melo: A realidade é que, em muitos desses ambientes críticos, substituir completamente sistemas legados simplesmente não é viável, seja por custo, complexidade operacional ou até mesmo por questões regulatórias. O foco não deve ser eliminar o legado, mas como gerenciá-lo de forma segura enquanto se evolui.
O primeiro passo, novamente, é visibilidade. É preciso ter um inventário claro e atualizado de todos os sistemas e dispositivos, identificando especialmente aqueles que já estão em fim de vida ou sem suporte do fabricante. Com esse mapeamento, é possível criar um plano estruturado de modernização com cronograma realista, priorizando áreas e pontos de maior risco para a operação.
Enquanto o retrofit não é concluído, é fundamental implementar camadas de proteção adicionais. Isso pode incluir segmentação de rede para isolar sistemas legados, monitoramento intensivo de tráfego anômalo, firewalls dedicados e até sistemas de detecção de intrusão específicos para proteger equipamentos que não podem ser atualizados ou substituídos imediatamente.
Por fim, mesmo soluções legadas podem e devem ser integradas a uma camada de supervisão unificada. Isso permite monitorar a saúde e o comportamento desses sistemas junto com tecnologias modernas, mantendo visibilidade operacional completa, independentemente da idade da tecnologia.
Revista Segurança Eletrônica: Olhando para o futuro, quais avanços tecnológicos mais devem transformar a forma como as instituições lidam com segurança nos próximos anos?
Ueric Melo: Eu acredito que o avanço mais transformador não será uma tecnologia isolada, mas a convergência cada vez maior entre segurança física e cibernética, algo que o caso do Louvre ilustra perfeitamente. A distinção entre essas disciplinas está desaparecendo rapidamente, e as instituições que não reconhecerem isso estarão vulneráveis.
A Inteligência Artificial continuará evoluindo, mas não apenas nas aplicações tradicionais de detecção que já conhecemos. Devemos ver nos próximos anos a IA atuando como copiloto operacional, auxiliando em investigações complexas, sugerindo correlações não óbvias entre eventos.
Mas o ponto central é que todas essas tecnologias só entregam valor real quando integradas em uma estratégia unificada de segurança. Uma câmera comprometida é tanto um problema de segurança física quanto cibernético. Um acesso não autorizado pode ser físico ou digital, ou ambos simultaneamente.
Instituições que abraçarem essa convergência, tratando segurança de forma holística e integrada, estarão muito melhor preparadas para os desafios futuros do que aquelas que continuarem operando em silos.

