Especialista explica como algoritmos analisam comportamento em tempo real, reduzem alarmes irrelevantes e mudam o papel do operador nas centrais
Por Fernanda Ferreira
Nos últimos anos, a inteligência artificial passou a ocupar um papel cada vez mais central nas operações de segurança eletrônica, especialmente nas centrais de monitoramento. Ao analisar imagens em tempo real e identificar padrões de comportamento, essas tecnologias prometem reduzir falsos alarmes, aumentar a eficiência operacional e permitir uma atuação mais preventiva das equipes de segurança.
Nesta entrevista, Lucas Cinelli, CEO e cofundador da Octos, explica como a aplicação de IA ao monitoramento de vídeo pode transformar o modelo tradicional das centrais, que historicamente operam de forma reativa. O executivo também detalha como algoritmos de análise comportamental ajudam a detectar situações de risco antes que um incidente aconteça e discute o impacto dessas ferramentas no papel dos operadores e no futuro dos serviços de monitoramento.
Revista Segurança Eletrônica: Para começarmos, poderia apresentar a sua trajetória profissional e como nasceu a Octos?
Lucas Cinelli: Eu me formei em Engenharia Eletrônica e de Computação na UFRJ em 2016 e durante o intercâmbio na Supélec, em Paris, entre 2014 e 2016, para uma dupla diplomação na Europa, me encantei com processamento de imagem, indo depois trabalhar na equipe de visão computacional da empresa parisiense de drones Parrot – isso em 2015, ainda muito antes do boom de IA.
O embrião da Octos veio em 2018, durante o mestrado em processamento de imagens na COPPE/UFRJ. Na época, eu e outros colegas fazíamos pesquisa e publicávamos artigos científicos, além de atuarmos em projetos de P&D com grandes empresas como a Petrobras, desenvolvendo algoritmos e aplicações para identificar anomalias em vídeos e reconhecer problemas em operações complexas a partir de textos. Apesar de intelectualmente desafiador, até por isso segui para o doutorado posteriormente, sentíamos frustração por não vivenciar o resultado do que foi construído. Tecnologia de ponta, algoritmos complexos, resultados incríveis, mas que não podíamos observar. A vontade de tomar a frente e construir a visão do que entendíamos como ideal foi se acumulando até que, um ano depois, resolvemos tomar ação e aplicar esses conhecimentos em problemas do cotidiano, em que pudéssemos notar a mudança para um país melhor perto de nós.
Buscamos programas de empreendedorismo, saímos do laboratório e fomos para a rua em busca de problemas, conversando com centenas de pessoas de setores e cargos diferentes, até convergirmos no que a Octos é hoje. Esse processo de ideação e validação levou mais um ano e, em 2021, começamos a comercialização. Desde então, a tecnologia e o produto passaram por muitas evoluções, mas o nosso core é o mesmo, nossa motivação é a mesma e o crescimento e reconhecimento que temos recebido são reflexos disso.
Revista Segurança Eletrônica: Por que escolheu focar especificamente no mercado de segurança eletrônica?
Lucas Cinelli: Inicialmente, não tínhamos uma predileção por um mercado específico, o desejo era resolver um problema grande com impacto real na vida das pessoas e começamos a buscar no nosso em torno. Não demorou muito e mergulhamos na questão da segurança. O Rio de Janeiro havia acabado de passar por uma crise de segurança e víamos diariamente notícias de crimes e violência não só na cidade, mas por todo o país. O meu pai foi assaltado a mão armada saindo de casa para trabalhar por essa época. Comparando com as taxas de criminalidade na França que vivenciei durante o tempo que morei lá, tudo parecia um absurdo. Ao investigar, notamos que a segurança era reativa, usando câmeras só para observar o disparo de um alarme ou, ao contrário, acompanhar a movimentação em centenas de câmeras simultaneamente e percebemos que a tecnologia que aplicávamos nos projetos de P&D das grandes empresas poderiam ser usados para atacar esse problema.
Revista Segurança Eletrônica: O que a solução de inteligência artificial da Octos entrega para uma operação de segurança?
Lucas Cinelli: Entregamos o que chamamos de inteligência proativa. Em essência, nossa plataforma de inteligência artificial, que opera em nuvem, transforma o fluxo de vídeo de qualquer câmera de segurança em dados estruturados e alertas inteligentes, permitindo que as equipes de segurança deixem de ser reativas para se tornarem preditivas.
Nosso principal público-alvo são as centrais de monitoramento, empresas de portaria remota e grandes corporações que precisam gerenciar operações de segurança complexas e de missão crítica. O que fazemos é analisar as imagens em tempo real para identificar comportamentos e eventos específicos que realmente indiquem um risco. Para isso, desenvolvemos múltiplas camadas de inteligência, cada uma focada em um tipo de ameaça.
Por exemplo:
– Nossa inteligência de Detecção é a base, identificando com altíssima precisão a presença de pessoas, carros e motos, e ignorando os alarmes falsos causados por animais, chuva ou mudanças de iluminação.
– A camada de Perambulação, ou loitering, vai além, analisando o comportamento. Ela identifica um indivíduo que ronda uma área por tempo demais e o reidentifica após retornar, um padrão clássico que precede uma invasão.
– Temos também a inteligência de Adulteração de Câmera, que alerta imediatamente se alguém tenta cobrir, desviar ou danificar uma câmera, garantindo a integridade do sistema.
– Para controle de acesso, a Dupla Passagem impede fraudes em portões e cancelas, detectando quando dois veículos tentam passar com uma única autorização e o Portão Aberto identifica se o portão foi esquecido aberto, uma grave falha de processo.
– Para a gestão de equipes, a inteligência de Posto Inativo garante que áreas críticas, como guaritas ou salas de controle, nunca fiquem sem um operador presente e atento ao trabalho.
Há muitas outras inteligências como identificação de armas, violência e fogo, além da possibilidade de personalização, como para EPIs menos comuns, como japona e cinturão. O resultado final é uma operação muito mais eficiente e segura.
Reduzimos drasticamente o número de eventos irrelevantes, permitindo que o operador se concentre em ameaças reais. Isso não só otimiza os custos operacionais, mas eleva o nível de segurança, pois a resposta se torna mais rápida e assertiva.

Revista Segurança Eletrônica: Atualmente, os grandes VMS do mercado já possuem analíticos e deep learning próprios embarcados em suas plataformas. O que a Octos traz de diferente para esses softwares? Onde termina o analítico embarcado nos VMS e onde começa a camada de inteligência que vocês propõem?
Lucas Cinelli: Por que não vamos sempre em um clínico geral e ao invés disso buscamos especialistas? Porque precisamos de diagnósticos e análises que estão além da capacidade que o clínico geral pode oferecer. Isso não quer dizer que ele seja menos importante, cada um tem sua devida importância, o clínico dá a base sólida e encaminha para o especialista adequado. Da mesma forma, os VMS do mercado entregam uma base sólida para gerenciamento dos dispositivos enquanto a Octos se especializa em IA e por isso consegue entregar algo que vai além do que os VMS conseguem, não só em termos de qualidade, mas de eficiência e abrangência também; são diferentes tipos, com menor consumo de recursos e maior assertividade. Por exemplo, IAs como posto inativo e portão aberto não são oferecidas pelos VMS e mesmo em casos mais “tradicionais”, temos clientes que trocaram o analítico do VMS pela nossa plataforma por conta da precisão superior.
Revista Segurança Eletrônica: Com quais VMS vocês já estão integrados?
Lucas Cinelli: Nós estamos integrados com o D-Guard e o Digifort, funcionando também para o Sigma Imagem. Esses dois correspondem a maior parte dos casos de uso no Brasil e América do Sul, no entanto, temos capacidade de nos integrar com outros caso haja necessidade. É importante pontuar que o VMS não é obrigado aplicar nossa IA na operação, pois nossa tecnologia também pode se conectar diretamente com os dispositivos, o que traz grande flexibilidade e nos permite otimizar para a realidade de cada cliente.
Além disso, nossa arquitetura foi projetada para ser extremamente flexível, então se um cliente utiliza um VMS com o qual ainda não temos uma integração nativa, nosso processo para desenvolvê-la é muito ágil. Nós nos integramos não só com os VMS, mas também com os softwares de gestão de eventos, como Moni, Sigma, Situator e dentre outros, para que a experiência seja transparente para a central de monitoramento.
Os alertas inteligentes gerados pela Octos chegam diretamente na interface do software que o operador já utiliza no seu dia a dia, sem a necessidade de treinar a equipe em uma nova plataforma. A inteligência da Octos flui de maneira contínua para dentro do fluxo de trabalho já existente, potencializando a operação sem causar rupturas.

Revista Segurança Eletrônica: A redução de falsos alarmes é frequentemente citada como um dos maiores ganhos da IA. Na prática, o que realmente permite essa redução?
Lucas Cinelli: É muito importante trazer esse questionamento, pois já presenciamos alguns donos de empresa preferirem o alarme tradicional, rebatendo que a IA dá mais alertas falsos do que o sensor. Existem dois pontos relevantes, o primeiro se refere à cobertura; o alarme tradicional vai funcionar muito bem para ambientes fechados, como o interior de uma casa, mas só vai avisar quando o ladrão já estiver dentro e não há tempo suficiente para que a situação seja revertida. Já em ambientes abertos, a história muda e os sensores passam a gerar muitos alarmes falsos, quem nunca sofreu com chuva e vento? Nesse cenário, a IA se mostra uma aliada poderosa ainda que haja eventuais alertas falsos, porque ela se propõe a muito mais, logo é insensato comparar os dois casos, pois são objetivos diferentes: você quer avisar depois de acontecer ou antes? Como você deseja se posicionar para o seu cliente: sinônimo de custo e más notícias ou de sucesso e economia?
O segundo ponto é sobre a IA em si, diferente do sensor que é “binário”, que dispara quando o circuito é aberto, não importando o motivo, o modelo de IA analisa toda a cena e busca um padrão específico para poder disparar, seja uma pessoa, seja outro objeto, seja até uma ação. A flexibilidade para definir esses padrões permite uma especificidade e uma personalização muito maiores e, consequentemente, relevância também. Além disso, a IA evolui, não apenas como outros softwares em geral, mas suas próprias calibragens responsáveis por encontrar padrões são ajustadas a partir dos erros e acertos.
Revista Segurança Eletrônica: Como o algoritmo consegue identificar uma “intenção” ou um “comportamento suspeito” antes que a invasão ou o crime de fato aconteçam?
Lucas Cinelli: É crucial desmistificar a ideia de que a IA “prevê o futuro” ou “lê intenções”. O que a nossa tecnologia faz, e faz muito bem, é reconhecer padrões de comportamento que, com alta probabilidade estatística, precedem um incidente de segurança. A transição da segurança reativa para a preditiva está fundamentada na análise de comportamento. Um criminoso, antes de cometer uma invasão, por exemplo, quase sempre exibe um comportamento de reconhecimento. Ele não age por impulso. Ele estuda o local, observa os pontos de entrada, mede o tempo de resposta, verifica a presença de câmeras. Esse comportamento de “rondar” uma área, de passar repetidamente pelo mesmo local sem um destino claro, é um padrão. Para um ser humano, pode ser sutil e passar despercebido, para a nossa IA, que monitora de forma contínua e incansável, esse padrão é um sinal claro de alerta.
Nossa inteligência de Perambulação foi treinada especificamente para isso. O operador de segurança é notificado com as imagens do evento e pode tomar uma ação preventiva, como acionar uma sirene, usar o áudio bidirecional para abordar o suspeito ou despachar uma viatura. A invasão é evitada antes mesmo de começar. Portanto, não se trata de adivinhar uma intenção, mas de identificar, através de dados e análise de padrões, os precursores de uma ação criminosa. Estamos transformando a experiência e a intuição de um agente de segurança experiente em um algoritmo escalável e que opera 24/7, sem piscar, sem cansar, em constante evolução.
Revista Segurança Eletrônica: Com a entrada massiva da IA nas centrais, estamos decretando o fim do modelo onde o operador fica olhando para o video wall. Você enxerga a IA substituindo esses profissionais? Qual é o novo papel do operador em uma central de monitoramento e na equipe de segurança?
Lucas Cinelli: De forma alguma. O que estamos decretando é o fim de um modelo de trabalho ineficiente, repetitivo e propenso a falhas. O modelo de ter dezenas de operadores olhando para centenas de telas é insustentável e, francamente, desumano. Estudos mostram que a capacidade de atenção de uma pessoa para monitorar vídeos cai drasticamente após poucos minutos. A IA não vem para substituir o operador, mas para libertá-lo dessa tarefa e elevá-lo a um novo patamar de atuação. Eu vejo a IA como um copiloto. O operador de segurança deixa de ser um “vigia de telas” para se tornar um gestor de riscos, um analista de segurança tático. O novo papel do operador é muito mais estratégico e valorizado. Em vez de tentar encontrar uma agulha no palheiro, ele recebe da IA apenas os eventos que importam, já pré-analisados e contextualizados. Sua função passa a ser a de tomar a decisão final: qual protocolo acionar? Qual equipe despachar? Como responder àquela ameaça específica? A IA automatiza a detecção, mas a tomada de decisão, o julgamento, a comunicação e a coordenação da resposta continuam sendo atribuições fundamentalmente humanas. A tecnologia cuida da parte exaustiva e repetitiva, enquanto o profissional humano cuida da parte inteligente e estratégica. Na verdade, acreditamos que a IA vai valorizar o profissional de segurança, exigindo novas habilidades e oferecendo um trabalho mais engajador e menos estressante.
Revista Segurança Eletrônica: Olhando para os próximos anos, qual mudança estrutural deve impactar mais o setor: IA preditiva real, automação operacional mais profunda ou mudança no modelo de serviços das centrais?
Lucas Cinelli: É uma excelente reflexão, pois esses três pilares estão intrinsecamente conectados e um impulsiona o outro. A IA preditiva real, como já discutimos, é o motor tecnológico que permite a identificação de ameaças antes que elas ocorram. Essa capacidade, por sua vez, habilita uma automação operacional mais profunda, onde os protocolos de resposta podem ser parcialmente ou totalmente automatizados com base na natureza do alerta gerado pela IA. No entanto, na minha visão, a mudança estrutural de maior impacto, que será a consequência direta das outras duas, é a mudança no modelo de serviços das centrais de monitoramento. Historicamente, o modelo de negócio era baseado na reação a um alarme. O valor estava em “responder quando algo acontece”. Com a IA, o valor se desloca para “garantir que nada aconteça”.
O serviço de segurança com IA vai evoluir e existe uma tendência forte no exterior (em países europeus e nos EUA) de “do it yoursef”, ou seja, quem enxergar IA como commodity e não tiver gestão de risco proativa vai perder o cliente não para o concorrente, mas para o fabricante do sistema. Os prestadores de serviços de segurança devem continuar buscando formas de redução do custo com automação de processos sem sacrificar a qualidade do serviço.
O cliente final não pagará mais apenas por uma sirene que toca, mas por um serviço de inteligência que previne perdas, otimiza a operação e fornece dados estratégicos sobre seu negócio.
Essa mudança é profunda. Ela transforma a central de monitoramento de um centro de custo reativo em um parceiro estratégico e gerador de valor para o cliente. A IA e a automação são as ferramentas que viabilizam essa transformação, mas a reinvenção do modelo de serviço é o que, de fato, irá redefinir o setor de segurança eletrônica nos próximos anos.
Revista Segurança Eletrônica: Para fecharmos, qual erro o mercado de segurança eletrônica não pode cometer nos próximos anos em relação ao uso de IA?
Lucas Cinelli: O maior erro que o mercado pode cometer é tratar a inteligência artificial como uma “caixa-preta”, como mágica ou como uma simples feature em uma lista de funcionalidades. A IA não é uma commodity. Implementar IA por implementar, sem um entendimento claro do problema que se quer resolver e de como a tecnologia se encaixa na operação, é a receita para a frustração. O erro a ser evitado é a banalização da tecnologia. Vender “IA” como um selo em uma caixa sem garantir que ela entregue precisão, confiabilidade e valor real para a operação é um desserviço para todo o setor e já estamos vendo isso acontecer com algumas empresas. Isso cria desconfiança e pode atrasar a adoção de soluções que realmente funcionam. A IA não é toda igual. Existe uma diferença enorme entre um analítico simples e uma plataforma de deep learning robusta e especializada. O caminho correto é focar no problema. Em vez de perguntar “você tem IA?”, as empresas de segurança e seus clientes deveriam perguntar: “Como sua solução resolve o meu problema de falsos alarmes? Como você me ajuda a prevenir uma invasão antes que ela aconteça? Qual a sua taxa de assertividade em cenários reais e complexos?”. O mercado precisa abraçar a IA com uma mentalidade estratégica, vendo- a como uma ferramenta para transformar o modelo de negócio, capacitar suas equipes e entregar um serviço de segurança fundamentalmente melhor. A tecnologia pela tecnologia não resolve nada. A tecnologia aplicada com propósito, para resolver um problema real, é o que transforma um setor. Esse é o caminho que a Octos acredita e está construindo.

