Com 40 mil câmeras e uso intensivo de inteligência artificial, o programa Smart Sampa acelera prisões, recupera veículos e redefine a gestão da segurança urbana
Por Fernanda Ferreira
A capital paulista passou a operar um sistema de vigilância sem precedentes no país. O Smart Sampa, programa da Prefeitura de São Paulo sob gestão da Secretaria Municipal de Segurança Urbana, consolidou uma rede de 40 mil câmeras espalhadas por toda a cidade – metade próprias, metade integradas a equipamentos privados – conectadas a algoritmos de inteligência artificial capazes de reconhecer faces, ler placas de veículos e gerar alertas em tempo real.
Com foco na pronta resposta a ocorrências e na integração entre diferentes órgãos públicos, o projeto se consolidou como um dos principais pilares da política municipal de segurança. A plataforma opera em articulação com bases de dados da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, para identificação de pessoas desaparecidas, e da Secretaria de Segurança Pública do Estado, para localização de foragidos da Justiça, além de atuar de forma coordenada com órgãos como CET, SPTrans e Defesa Civil.
O “coração” do Smart Sampa funciona em uma central de monitoramento instalada no centro histórico da cidade, considerada a maior da América Latina. Em operação contínua, 24 horas por dia, o espaço reúne centenas de agentes da Guarda Civil Metropolitana e da Defesa Civil, responsáveis por analisar alertas, validar ocorrências e acionar, em poucos minutos, a viatura mais próxima do local identificado.
À frente da Secretaria Municipal de Segurança Urbana, Orlando Morando detalha nesta entrevista como o Smart Sampa foi estruturado, os resultados já alcançados, os desafios do uso de reconhecimento facial em larga escala e os próximos passos de um projeto que aposta na tecnologia como ferramenta estratégica no combate ao crime e na gestão cotidiana da cidade mais populosa do Brasil.

Revista Segurança Eletrônica: Poderia contar um pouco como surgiu o Smart Sampa e o propósito do projeto?
Orlando Morando: O programa Smart Sampa foi criado pelo prefeito da cidade de São Paulo Ricardo Nunes, e eu não digo que foi criado pela administração, ele é o grande idealista, porque foi pessoalmente conhecer tecnologias que existiam no mundo e colocou em prática o mais moderno e eficiente, o maior programa de videomonitoramento público da América Latina e acredito que privado também.
Hoje, o sistema conta com 40 mil câmeras, sendo 20 mil próprias do programa Smart Sampa (pagas pela prefeitura de São Paulo) e outras 20 mil integradas. Uma câmera integrada funciona assim: um particular tem uma câmera, possui as disposições necessárias e o armazenamento em nuvem; nós conectamos o Smart Sampa à câmera dele. Além de empresas de vigilância eletrônica, hoje já são 114 empresas conectadas. Isso permitiu, em menos de um ano, uma capilaridade de 40 mil câmeras por toda a cidade.
Uma das principais características do Smart Sampa é o reconhecimento facial com base no banco de dados de procurados pela justiça, o BNMP (Banco Nacional de Mandados de Prisão). Todos os que tem mandado de prisão em aberto, ao passar por uma das 40 mil câmeras do programa, serão identificados e em 8 segundos temos a confirmação com 92% de assertividade.
O sistema faz o encontro da câmera com a viatura mais próxima e indica o tempo e a distância para chegar ao local. A imagem do procurado é enviada em tempo real para o tablet da viatura, se o policial estiver patrulhando de carro, ou para o celular, caso ele esteja de moto ou a pé. Isso permite prisões – entre a passagem do procurado pela câmera até o momento em que ele é preso – em menos de 9 minutos.
Algumas prisões acontecem ainda mais rápido, um exemplo foi um traficante condenado no Sergipe que foi preso dentro do próprio prédio do Smart Sampa; ele entrou para usar o banheiro, a câmera o identificou, o alerta tocou no celular do sentinela e ele foi preso na hora.
Foi assim que conseguimos chegar a 2.665 prisões de pessoas capturadas que tinham pendências com a justiça, como assassinos, traficantes, estupradores, ladrões de banco, etc.
Além disso, temos o banco de dados de direitos humanos, que identifica pessoas desaparecidas. Já foram 148 pessoas identificadas e devolvidas às famílias. É o programa que mais identificou desaparecidos da história do Brasil, que é um trauma enorme para a família.
Outro ponto são os flagrantes, por exemplo, uma pessoa que está roubando um celular ou alguém que está invadindo um prédio público, como uma escola. A câmera capta o momento, gera o alerta e o operador verifica o que está acontecendo; o vídeo da ação é enviado para a viatura mais próxima, da mesma forma que acontece na detecção facial, para atender a ocorrência e efetuar o flagrante.
O quarto tripé são as leituras de placas de veículos roubados e furtados. Passamos a identificar essas placas com base no sistema Córtex, em câmeras acopladas nas motos dos agentes e em breve terá um lançamento de mais uma tecnologia que estamos lançando para identificar inclusive placas adulteradas.
Para se ter uma ideia, com a chegada da tecnologia associado ao programa que o prefeito Ricardo Nunes criou de bonificar guardas que prendem motos roubadas e furtadas (hoje a prefeitura paga um bônus de R$ 1.000,00 por moto recuperada para cada equipe), já passamos de 500 motos recuperadas. Se a moto passou a ser uma ferramenta para o criminoso, é a moto que vamos retirar dele.

Revista Segurança Eletrônica: Para além do reconhecimento de suspeitos, como o Smart Sampa atua na cooperação com outras forças e na gestão do cotidiano da cidade?
Orlando Morando: Temos convênio com a Polícia Civil, auxiliando em investigações. Eles nos demandaram em quase 1.000 casos no último ano e ajudamos a esclarecer 500, como o caso do ciclista Vitor Medrado, vítima de latrocínio (roubo seguido de morte), e da professora Fernanda Bonin, encontrada morta em Interlagos; casos que possivelmente teriam muita dificuldades de serem esclarecidos, e felizmente estão sendo resolvidos. São ações que temos conseguido auxiliar a Polícia Civil e a Polícia Rodoviária Federal.
Também atuamos em ações integradas com a SPTrans, CET e Defesa Civil. Por exemplo, caiu uma árvore, rapidamente eu vejo ela na câmera, identificamos e comunicamos a equipe da Defesa Civil que está na rua para fazer a remoção; quebrou um ônibus, comunicamos o agente da SPTrans para retirar o veículo; tem um semáforo desligado, nós avisamos a central da CET sobre a ocorrência.
Então, além do reconhecimento facial, leitura de placas e flagrantes, o auxílio que temos dado às investigações, considerando que nós não podemos investigar, tem sido extremamente importante. Esse é o programa Smart Sampa.

Revista Segurança Eletrônica: Quantos alertas a equipe do Smart Sampa recebe por dia?
Orlando Morando: Nós lemos aproximadamente 10 milhões de faces por dia e cerca de 5 milhões de placas de carro por dia.
Revista Segurança Eletrônica: Quais são os planos para 2026? Até onde vai o projeto?
Orlando Morando: O Smart Sampa é um “bebê” que está completando o primeiro ano, e a tecnologia voltada a segurança não tem limites, os avanços vão ser cada vez maiores.
Vamos iniciar testes de câmeras de longa distância, estamos falando de câmeras com 20 km de alcance para identificar atitudes ilícitas, reconhecimento facial, etc. Vimos isso com o prefeito na viagem que fomos à China.
Também vamos passar a identificar caminhões que transportam entulho ilegal e máquinas que fazem perfurações irregulares (que podem estourar canos de água ou gás), tudo isso através de algoritmos, com o objetivo de melhorar a zeladoria da cidade.
Atualmente já conseguimos puxar a rota de um veículo nos últimos 30 dias dentro de São Paulo através da leitura de placa, isso para a Polícia Civil tem sido fantástico, e dependendo da demanda judicial, conseguimos fazer a mesma coisa com uma pessoa, colocando a sua face no sistema e verificando em quais câmeras ela passou.
O mais difícil foi feito: o prefeito Ricardo Nunes teve a coragem de colocar o programa de pé. Agora, a nossa missão é incrementá-lo. A inteligência artificial se reinventa e descobrimos novas funcionalidades diariamente. Como gestor público e ex-prefeito, sou um entusiasta desse programa, pois vejo nele o que existe de mais inovador em proteção urbana e combate efetivo ao crime.
Revista Segurança Eletrônica: Dentro da solução de pronta resposta, tem sido usado algo de inteligência artificial para acelerar essa velocidade?
Orlando Morando: Usamos IA hoje no reconhecimento facial e na placa, que é a velocidade que eu cruzo a informação, mas já existe disponível, nós estamos estudando, novas ferramentas com base na inteligência artificial.
Revista Segurança Eletrônica: Gostaria de deixar um recado final?
Orlando Morando: Condenado e ladrão, saia de São Paulo. Se eu não te prender hoje, eu te prendo amanhã.
Os números provam, prendemos no período de um ano 2.665 pessoas foragidas da justiça, pessoas que deveriam estar presas cumprindo pena. O que o Smart Sampa prendeu em 11 meses enche sozinho cinco penitenciárias. Tem ideia do ganho que é isso para a cidade de São Paulo? Tirar 1.890 veículos roubados e furtados, produtos ilícitos que circulavam livremente na cidade; mais de 3.650 flagrantes; prendemos com as imagens do Smart Sampa a “Gangue do Gogó”, que atuava na região central de São Paulo roubando corrente do pescoço das pessoas.
A ferramenta é maravilhosa e a Polícia Municipal de São Paulo é exemplar. Prova disso é que, entre esses mais de 2 mil criminosos capturados, não foi efetuado um único disparo de arma de fogo. Quando você une equipes treinadas e preparadas à tecnologia, o resultado é o melhor possível: baixa letalidade e alta resolução. A lei manda prender, e é exatamente isso que estamos fazendo. Temos a clareza de que o criminoso deve ser punido com a cadeia, e é isso que o Smart Sampa entrega.
Como integrar uma câmera ao Smart Sampa
Para estar conectado ao Smart Sampa é preciso ter câmeras compatíveis com as necessidades do programa e as imagens devem estar na nuvem. As empresas e estabelecimentos que tenham interesse, devem enviar um e-mail para smartsampa@prefeitura.sp.gov.br.
Site oficial do Smart Sampa: https://smartsampa.prefeitura.sp.gov.br

