Integração e IA redefinem a segurança eletrônica em grandes empreendimentos

Convergência entre videomonitoramento, controle de acesso, alarmes e inteligência artificial está transformando a segurança de uma operação reativa para uma plataforma estratégica de gestão de riscos


Por Fernanda Ferreira

A segurança eletrônica vive uma mudança estrutural, na qual grandes empreendimentos passaram a buscar plataformas integradas capazes de conectar videomonitoramento, controle de acesso, alarmes e análise inteligente de dados em uma única operação, em vez de operar sistemas isolados. O movimento, impulsionado pela crescente complexidade operacional e pela necessidade de maior eficiência, também abre espaço para o avanço da inteligência artificial, que deixa de atuar apenas como ferramenta de registro para assumir um papel preditivo e estratégico.

Nesta entrevista, Oscar Hilgert, diretor comercial da Positivo SEG, analisa como a integração entre tecnologias está reduzindo falsos alarmes, aumentando a eficiência das centrais de monitoramento e redefinindo a forma como condomínios, complexos corporativos e empreendimentos multifuncionais gerenciam riscos.


Revista Segurança Eletrônica: A segurança eletrônica, principalmente em grandes empreendimentos, vive um momento de transição clara, de sistemas isolados para plataformas integradas. Na sua visão, o que está puxando essa mudança?

Oscar Hilgert: Essa transição é impulsionada principalmente por três fatores: aumento da complexidade operacional, busca por eficiência e evolução tecnológica. Grandes empreendimentos lidam hoje com fluxos intensos de pessoas, múltiplos acessos e diferentes perfis de risco, o que torna inviável operar sistemas isolados. Ao mesmo tempo, há uma pressão constante por redução de custos e ganho de produtividade nas equipes de segurança. A integração surge como resposta natural, viabilizada por tecnologias como nuvem, APIs e inteligência artificial, que permitem que diferentes sistemas conversem e entreguem uma visão unificada e estratégica da operação.


Revista Segurança Eletrônica: Na prática, o que muda na operação de um empreendimento quando câmeras, controle de acesso e alarmes passam a conversar entre si? Consegue dar um exemplo concreto de como isso se traduz no dia a dia?

Oscar Hilgert: O principal impacto é a mudança de uma operação fragmentada para uma gestão orientada por contexto. Em vez de lidar com eventos isolados, o operador passa a visualizar a situação de forma integrada. Por exemplo: um acesso fora do padrão pode automaticamente acionar a câmera mais próxima, validar a identidade do usuário e cruzar essa informação com o histórico de movimentação. Isso reduz o tempo de resposta, aumenta a assertividade das decisões e diminui a dependência de processos manuais.


Revista Segurança Eletrônica: A IA virou palavra-chave no setor, mas as aplicações variam muito. No videomonitoramento e na análise de eventos, onde ela está entregando os resultados mais expressivos?

Oscar Hilgert: Os resultados mais consistentes aparecem na análise comportamental e na filtragem inteligente de eventos. A IA tem se mostrado muito eficaz na identificação de padrões fora da normalidade, como movimentações atípicas, permanência indevida em áreas restritas ou alterações incomuns no fluxo de pessoas. Além disso, ela reduz drasticamente o volume de alertas irrelevantes, permitindo que as equipes foquem no que realmente exige atenção. Isso transforma a dinâmica das centrais de monitoramento, tornando-as mais estratégicas e menos operacionais.


Revista Segurança Eletrônica: A análise por IA permite que o sistema interprete o que está acontecendo, não apenas registre. Como isso muda a postura da segurança, de reativa para preventiva?

Oscar Hilgert: Quando o sistema passa a interpretar contexto, ele deixa de atuar apenas como registrador de evidências e assume um papel ativo na prevenção. A segurança deixa de reagir exclusivamente após um incidente e passa a antecipar riscos com base em padrões e comportamentos. Na prática, isso significa bloquear um acesso suspeito antes da ocorrência de uma invasão ou alertar a equipe diante de uma situação que pode evoluir para um risco maior. É a mudança de uma lógica reativa para uma postura preditiva.


Revista Segurança Eletrônica: Falso alarme é um problema crônico no setor e um dos maiores geradores de desconfiança nos sistemas. Como a integração entre dispositivos ataca esse problema de forma estrutural?

Oscar Hilgert: A integração permite validar eventos por múltiplas camadas de informação antes de gerar um alerta. Um alarme isolado pode ter baixa confiabilidade, mas, quando cruzado com dados de vídeo, controle de acesso e sensores adicionais, o sistema ganha contexto. Essa correlação inteligente reduz significativamente os falsos positivos, porque o evento deixa de ser analisado de forma isolada e passa a ser interpretado dentro de um cenário mais amplo.


Revista Segurança Eletrônica: Menos falsos alarmes significa também menos acionamentos desnecessários de equipes e recursos. O que muda na eficiência das centrais de monitoramento no dia a dia?

Oscar Hilgert: O impacto é direto na eficiência operacional. Com menos ruído e menos acionamentos desnecessários, as equipes deixam de atuar de forma sobrecarregada e passam a concentrar esforços nos eventos realmente críticos. Isso reduz desgaste, melhora a qualidade das decisões e aumenta a confiabilidade da central. O resultado é ganho de produtividade, redução de custos e maior previsibilidade na operação.


Revista Segurança Eletrônica: Condomínios residenciais, complexos corporativos e empreendimentos de uso misto têm perfis de risco muito distintos. Como a solução integrada se adapta a cada um desses contextos? E os empreendimentos multifuncionais, representam um desafio à parte?

Oscar Hilgert: Embora a base tecnológica possa ser a mesma, a estratégia de aplicação varia conforme o perfil do empreendimento. Em condomínios residenciais, o foco costuma estar em controle de acesso e conveniência. Em complexos corporativos, a prioridade é gestão de fluxo, proteção de ativos e conformidade. Já nos empreendimentos multifuncionais, o desafio é integrar diferentes dinâmicas em um mesmo ecossistema, respeitando particularidades e níveis distintos de risco. Não é um cenário inédito, mas exige maior governança, segmentação e inteligência na configuração das regras.


Revista Segurança Eletrônica: Olhando para os próximos anos, qual avanço tecnológico você acredita que vai ter o impacto mais profundo na forma como a segurança eletrônica é projetada e operada?

Oscar Hilgert: A combinação entre inteligência artificial e plataformas unificadas em nuvem tende a ser o principal vetor de transformação nos próximos anos. Essa convergência permite escalar operações, integrar tecnologias distintas e aplicar inteligência de forma contínua e atualizável. Além disso, veremos sistemas cada vez mais autônomos, com capacidade de aprendizado e adaptação em tempo real.


Revista Segurança Eletrônica: Existe alguma tendência que o mercado está abraçando com entusiasmo hoje e que, na sua avaliação, ainda precisa de mais maturidade antes de virar padrão?

Oscar Hilgert: A própria inteligência artificial é um exemplo. Apesar de extremamente promissora, ainda exige maturidade em governança, qualidade de dados e definição clara de objetivos. Muitas iniciativas falham não pela tecnologia, mas pela ausência de estrutura para sustentá-la. Também há uma expectativa crescente por soluções “plug and play” em cenários complexos, o que nem sempre corresponde à realidade. Integração exige planejamento e estratégia.


Revista Segurança Eletrônica: Gostaria de deixar um recado final para os nossos leitores?

Oscar Hilgert: A segurança eletrônica está deixando de ser um conjunto de equipamentos para se tornar uma plataforma estratégica de gestão de riscos. Quem compreender esse movimento e investir em integração, inteligência e governança não apenas elevará o nível de proteção, mas também ganhará eficiência operacional e sustentabilidade no longo prazo.

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