Meus Irmãos como tal me reconhecem

Por Percival Campos Barboza

Éramos um bando de moleques. Aos dez ou onze anos de idade andávamos soltos pela cidade, ou melhor, pelos quarenta ou cinquenta quarteirões que compunham a cidade, com suas ruas principais calçadas em paralelepípedos e outras nem tão importantes de terra mesmo. Entre nossos desafios diários, um deles era cruzar quarteirões sem tocar no chão, apenas sobre muros e telhados, de casa em casa. Não havia prédios. Por um sistema de comunicação avançadíssimo, até hoje não muito bem explicado, nossas mães já sabiam de nossas atividades antes de chegarmos de volta em casa, e éramos “punidos” conforme a gravidade dos fatos, tout court, sem apelação. Não havia lugar onde não pudéssemos ir, de batizado, festas de aniversário e até velórios e enterros, aquele é o filho do fulano, primo do meu primo, amigo da minha tia, estuda com minha irmã, em todos os locais éramos reconhecidos, e como tais éramos recebidos. Sem avisos prévios, sem a necessidade de convites. As portas estavam abertas. São Paulo, a cidade, assim chamada pelos nossos habitantes, era um local distante, demorado para chegar, onde íamos com nossos pais de vez em quando, para compras ou para ver aviões em Congonhas. Sim, por que Guarulhos, onde nasci em 1956, e cidade da qual estou falando, não considerávamos como tal.

Tudo isto mudou. Hoje, no espaço de uma geração, posso andar horas por aquelas ruas sem reconhecer ou ser reconhecido por ninguém. A urbanização acelerada esfacelou o senso de comunidade, a ideia de que estamos seguros por reconhecermos e sermos reconhecidos pelas outras pessoas. Uma característica fundamental da psicologia humana foi esquecida. Reconhecer e ser reconhecido. Guarulhos passou da década de 50, quando nasci, para hoje, portanto em apenas 63 anos, de 35 mil habitantes para quase 1.5 milhão (Fonte Censos IBGE), um crescimento populacional de 40 vezes. A Via Dutra, principal rodovia do país, foi inaugurada quase que ontem (1951) e duplicada apenas em 1967, e trouxe para a pequena “vila” de Guarulhos, empresas do porte de uma Phillips, Olivetti, ASEA, Microlite, Cummins, Quaker, algumas entre centenas, transformando-a em um polo industrial, que hoje luta para reencontrar sua identidade.

Esta característica fundamental da segurança em comunidades, reconhecer e ser reconhecido, pode ser transportada com certeza para bairros inteiros da cidade de São Paulo, formados por identidades e culturas características comuns a seus habitantes, com algumas que até hoje permanecem, como Bom Retiro, Brás, Mooca, Cambuci, Liberdade, entre outros, muitas vezes também transformadas por levas de migrantes ou imigrantes que participaram da construção da própria cidade.

E então vieram os prédios, símbolos de progresso, e consequentemente as portarias e os porteiros, com a necessidade de controlar milhares de desconhecidos, por aqueles que não mais podiam reconhecê-los. A falta de espaços e o melhor aproveitamento de escassos recursos comuns, cria a principal característica das cidades modernas, irreversível na minha opinião: morar, viver e trabalhar em condomínios, cada vez maiores, cada vez com mais facilidades, mas cada vez mais precisando estabelecer um senso de comunidade dentro dos muros com os quais são cercados, na tentativa de isolá-los das cidades, que se tornaram ambientes agressivos. Este isolamento é hoje sua maior força, confere segurança na opinião da maioria de seus moradores, mas também é sua maior fraqueza, e o custo deste isolamento tornar-se-á insuportável.

A arquitetura com a qual se constroem condomínios ainda não responde a estas características da vida nas cidades, sendo comum a necessidade de adaptações e reformas, inclusive em prédios recém construídos. As mudanças conceituais têm sido muito lentas.

A tecnologia, com sua costumeira sopa de letras, CFTV, RFID, LPR, IOT, FR, IA, BI, PR, MD, entre outras, e também com sua usual evolução em escala geométrica, versões sobre versões, velocidades sobre velocidades, processamentos sobre processamentos, cada vez mais compreendida apenas por especialistas, estará devolvendo aos seus usuários suas prerrogativas de vida em comunidade satisfatoriamente, ou está transferindo estas prerrogativas a instâncias ainda mais distantes do nosso cidadão atônito, aquele a quem deveria servir?

Estão os moradores, ou usuários ou habitantes, cientes de suas reais necessidades e da importância de sua integração em comunidades, em sociedade sob seu controle ou ciência dos processos aos quais estão submetidos? Vai a arquitetura e a tecnologia embarcada em seus condomínios devolver-lhes a prerrogativa de reconhecer e serem reconhecidos, para sua segurança, vida comunitária saudável, a custos suportáveis?

Não se trata de saudosismo de minha parte, apenas temas para nossa reflexão. Sociedades antiquíssimas sempre se utilizaram do reconhecimento entre pessoas, como recurso fundamental para sua existência, sobrevivência e progresso, quando não com tecnologia, em épocas onde não havia, então com simples senhas, palavras e toques, remetendo à questão que dá título a este artigo. Boas reflexões.

Percival Campos Barboza
Arquiteto e Consultor para Segurança – Conditione Serviços Tecnológicos.

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