Drones se firmam como peças-chave na segurança patrimonial no Brasil

Nos últimos anos, drones deixaram de ser vistos apenas como ferramentas de monitoramento e se tornaram peças-chave em operações complexas de segurança pública e privada. Eles oferecem uma visão aérea em tempo real, reduzem riscos para profissionais em campo e ampliam a capacidade de resposta diante de incidentes. Mas, apesar do potencial e da tendência global, a adoção no Brasil ainda enfrenta barreiras como regulamentação, cultura organizacional e falta de conhecimento sobre operações automatizadas.

Para entender como essa tecnologia está transformando o setor, conversamos com Marcello Moreira, diretor de tecnologia da Aeroscan, empresa especializada em soluções de monitoramento por drones automatizados. Ele fala sobre os avanços, os desafios e o futuro da integração entre inteligência artificial e operações autônomas.


Revista Segurança Eletrônica: Nos últimos cinco anos, os drones conquistaram o mercado como uma ferramenta estratégica de segurança. Na sua opinião, por que os drones ganharam espaço tão rapidamente no setor, especialmente em operações policiais e segurança privadas?

Marcello Moreira: Se deu de forma rápida por causa da sua capacidade de oferecer uma nova perspectiva e aumentar a eficiência operacional. Drones fornecem imagens aéreas em tempo real, permitindo que as equipes em solo tenham uma visão mais abrangente para tomar decisões mais seguras e eficazes. Reduzem a exposição dos agentes de segurança a situações perigosas e permitem o monitoramento de grandes áreas que seriam de difícil acesso ou demoradas para patrulhas terrestres.

A Aeroscan, em particular, proporciona a integração das imagens a sistemas de vídeo monitoramento (VMS) e oferece rotas automatizadas, o que dispensa a necessidade de pilotagem manual, permitindo que o foco seja na análise das imagens e nos detalhes com zoom.

Revista Segurança Eletrônica: Existem diferenças entre o uso de drones no Brasil e em outros países? Estamos avançados, atrasados ou em linha com o mercado global?

Marcello Moreira: O uso de drones no Brasil está em sintonia com a tendência global, especialmente em áreas como segurança pública e privada, inspeção de infraestrutura e agricultura. No entanto, a regulamentação no Brasil, embora tenha evoluído, ainda está em uma fase inicial quando comparada a outros países, o que pode dificultar a compreensão dos limites do direito à privacidade e intimidade. No entanto, os drones com IA já são uma realidade em países como Israel, EUA e Austrália, e o Brasil está começando a entrar nessa era.

Revista Segurança Eletrônica: Na prática, o que um drone acrescenta a um esquema de segurança que câmeras, cercas ou patrulhas tradicionais não conseguem oferecer?

Marcello Moreira: Os drones oferecem uma série de vantagens que complementam e superam as limitações dos sistemas de segurança tradicionais. Eles proporcionam monitoramento aéreo em tempo real, o que permite uma visão ampla de 360 graus, algo que câmeras fixas ou patrulhas terrestres não conseguem. Drones equipados com zoom podem ampliar áreas de interesse em até 30 vezes, enquanto drones com câmeras térmicas podem identificar pessoas à noite, revelando detalhes invisíveis a olho nu. Além disso, os drones podem ser programados para patrulhar de forma autônoma, liberando as equipes para outras tarefas críticas. Eles também reduzem a exposição de profissionais a riscos, inspecionando áreas perigosas ou de difícil acesso, como telhados ou terrenos acidentados.

No caso específico da Aeroscan, nosso software propicia uma integração com soluções de segurança perimetral como cercas e radares. O que significa que ao receber um alerta de invasão perimetral o drone quem faz a pronta resposta trazendo uma melhor análise situacional.

Revista Segurança Eletrônica: Há setores em que o drone já se tornou essencial, como eventos de grande porte e monitoramento de fronteiras. Pode citar outros exemplos de aplicações que fazem sentido hoje, principalmente no cenário brasileiro?

Marcello Moreira: Sim, os drones se tornaram essenciais em diversos setores no Brasil. Em grandes eventos como os festivais de música, a Polícia Militar já utilizou drones de segurança da Aeroscan para controle de multidões e prevenção de incidentes. No apoio à PM na Fórmula 1, um drone cabeado da Aeroscan pôde voar por horas sem interrupção, transmitindo imagens em tempo real para as viaturas, o que aumenta a visão estratégica e a capacidade de resposta das forças de segurança.

Na segurança ferroviária, a solução da Aeroscan é utilizada no combate a roubos de carga. O drone realiza um trabalho de inteligência, monitorando as quadrilhas, identificando os modos de operação e as vias de acesso dos invasores. Equipado com câmeras térmicas e inteligência artificial, o nosso drone identifica pessoas, carros e objetos. Além disso, o drone ajuda a verificar os locais para onde as cargas roubadas são levadas, fornecendo informações cruciais para que as forças de segurança pública façam a apreensão.

Outro caso de uso da Aeroscan é no monitoramento de áreas de preservação, como as que ficam próximas a barragens. No período noturno, a caça e pesca ilegal são um problema. Com o uso de câmeras térmicas, o drone identifica as vias de acesso dos invasores, seja por terra ou pela água com barcos a remo. Ele também localiza acampamentos e até mesmo a caça que muitas vezes é escondida. O acervo de imagens é armazenado com segurança no software, o que permite que o material seja revisto para novas avaliações e comparações no futuro.

Revista Segurança Eletrônica: Como a IA integrada aos drones muda a forma de detectar padrões, comportamentos suspeitos e situações de risco em operações de segurança?

Marcello Moreira: A inteligência artificial embarcada nos drones muda completamente o paradigma da segurança, transformando-os de meras câmeras voadoras em ferramentas proativas de vigilância. Com a IA, os drones podem detectar automaticamente movimentos e comportamentos suspeitos, realizar reconhecimento facial ou de padrões, e executar patrulhas autônomas com rastreamento inteligente de alvos. Isso permite a análise automática de grandes volumes de dados visuais, identificando anomalias com uma precisão que era inimaginável nos sistemas tradicionais, o que leva a uma resposta mais rápida e eficaz em situações de risco. O software da Aeroscan se integra a diversas outras aplicações que também possuem IA. Em alguns casos, essas IAs são especializadas e treinadas para avaliar objetos específicos de um setor, potencializando as soluções que o cliente já possui e criando um ecossistema de segurança, em vez de transformar o drone em um herói.

Revista Segurança Eletrônica: Quais são as maiores barreiras para que drones sejam mais usados na segurança privada no Brasil: custo, legislação, infraestrutura ou cultura organizacional?

Marcello Moreira: As principais barreiras no Brasil são o desconhecimento da legislação e a cultura organizacional. Embora a lei permita operações automatizadas, algumas empresas assumem o risco de voar sem fazer a solicitação de voo, sem assistir à operação em tempo real e sem fazer o ARO (Análise de Risco Operacional), o que gera temeridade aos órgãos reguladores em autorizar o voo autônomo. Além do risco de incidentes, há multas e penalidades, mas no Brasil ainda se tem a cultura do risco mal calculado.

Culturalmente, muitas empresas ainda estão presas a modelos operacionais tradicionais, com vigilantes fazendo rondas manuais. Uma barreira comum é o desejo de substituir totalmente o vigilante pelo drone. Em locais de difícil acesso, como grandes terrenos ou áreas remotas, o uso do drone é a melhor opção e traz um retorno sobre o investimento (ROI) tremendo. No entanto, nem todo caso se resolve dessa forma. A evolução da tecnologia, como a autonomia de bateria e os sistemas de gestão, está superando barreiras de infraestrutura e custo.

Revista Segurança Eletrônica: Se por um lado os drones reforçam a segurança, por outro também já são usados por criminosos para contrabando, monitoramento de alvos e até ataques. Como o mercado de segurança pode reagir a essa ameaça no âmbito da segurança privada?

Marcello Moreira: Para reagir a essa ameaça, o mercado de segurança privada precisa adotar soluções de contra-drones, que são tecnologias projetadas para detectar, rastrear e neutralizar drones não autorizados. Essas tecnologias, que incluem sistemas de detecção e inibição, são empregadas em locais de alto risco. No entanto, a forma mais eficaz de combate é a identificação do piloto. O controle do drone também é rastreável, e, dessa forma, pode-se prender o infrator que faz mau uso do equipamento. Essa abordagem é análoga ao controle de armas em países como a Austrália, onde a legislação rigorosa após um massacre em 1996 incluiu o banimento de armas semiautomáticas e um programa de recompra, resultando na redução drástica de mortes por arma de fogo. Da mesma forma, no universo dos drones, a tecnologia que permite identificar o piloto ataca a raiz do problema, responsabilizando o infrator e coibindo o crime.

Além disso, é crucial fortalecer a cooperação e a troca de informações entre empresas de segurança, órgãos governamentais e especialistas. Estamos prontos para essas conversas.

Revista Segurança Eletrônica: Como você imagina o uso de drones na segurança nos próximos 10 anos?

Marcello Moreira: Nos próximos 10 anos, a presença de drones na segurança será tão comum quanto a de câmeras de vigilância são hoje. A tecnologia continuará a evoluir, com drones equipados com câmeras térmicas e sensores ambientais para detecção de riscos.

Já se usa na detecção de vazamento de gases, na avaliação de estruturas de barragens, e na avaliação de estruturas de pontes. Isso se dará de forma autônoma. Já estamos trabalhando “no futuro” com uma concessionária de rodovias para essa avaliação de tráfego, integridade da via e afins. Em outro projeto, atuamos com uma concessionária de metrô para o mesmo tipo de aplicação. São grandes empresas com grandes desafios que demandam grandes tecnologias.

Revista Segurança Eletrônica: Para os profissionais de segurança privada, integradores e gestores que estão lendo esta entrevista, por onde começar para avaliar se faz sentido adotar drones em seus projetos?

Marcello Moreira: Para começar, é fundamental realizar um planejamento detalhado, identificando os pontos críticos, os objetivos de segurança e os custos que se deseja alcançar. É crucial avaliar as necessidades específicas, como a necessidade de câmeras de alta resolução para inspeção visual ou sensores térmicos para anomalias de temperatura. É vital também se familiarizar com a regulamentação da ANAC e as normas de segurança. O treinamento da equipe é um ponto crucial para garantir que os operadores estejam preparados.

Os profissionais devem enxergar o drone de forma abrangente, integrando soluções, sistemas de VMS e sistemas de detecção perimetral. Dessa forma, eles poderão oferecer insumos informacionais para sistemas de inteligência que possam coibir ou atacar a origem do problema. Ao seguir essas etapas, os profissionais podem avaliar a viabilidade de adotar drones de forma segura e estratégica, garantindo uma operação mais eficiente.

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