Por Guilherme Crippa Ursaia, advogado e profissional de Segurança Corporativa, com experiência na gestão de segurança, riscos e operações em empresas multinacionais
O artigo aborda a gestão de ameaças comportamentais (Behavioral Threat Assessment and Management – BTAM) no ambiente corporativo, correlacionando a evolução de conflitos interpessoais a incidentes de segurança física de alta gravidade. A partir da análise de eventos recentes no setor varejista e fabril brasileiro, discutem-se os limites dos modelos reativos de segurança e a necessidade de integração entre a governança de pessoas, o compliance e a inteligência corporativa.
Apresentam-se indicadores estatísticos oficiais brasileiros de assédio, litígios trabalhistas e afastamentos previdenciários, além dos modelos teóricos de progressão da violência desenvolvidos pelo Federal Bureau of Investigation (FBI) e a matriz de red flags da norma ANSI/ASIS WVPI.1-2021. Por fim, propõem-se diretrizes operacionais para a constituição de comitês multidisciplinares e a execução de protocolos de desligamento seguro (offboarding de alto risco).
INTRODUÇÃO
A repercussão de agressões graves em ambientes operacionais e fabris, a exemplo das ocorrências registradas em unidades do varejo do Assaí Atacadista e na cadeia industrial da Bombril, coloca no centro do debate executivo a complexidade do controle de danos em instalações de alto fluxo. Mais do que acidentes isolados, eventos dessa magnitude evidenciam como o atrito interpessoal e o ressentimento acumulado podem evoluir para cenários de crise quando a dinâmica do conflito ultrapassa as alças tradicionais de contenção.
Sob a perspectiva da governança, a gestão do risco humano interno (insider risk) representa um dos desafios mais complexos para a maturidade corporativa. Mesmo em organizações estruturadas, é comum que a análise de conflitos permaneça restrita ao escopo trabalhista e de clima dos Recursos Humanos (RH), enquanto a Segurança Corporativa é acionada prioritariamente para contenções físicas de perímetro ou incidentes já consumados. A superação dessa visão compartimentada exige uma articulação contínua e multiprofissional.
Para preencher essa lacuna de processos e agir de forma preditiva, o setor privado tem buscado a implementação da Avaliação e Gestão de Ameaças Comportamentais (Behavioral Threat Assessment and Management – BTAM), metodologia que conecta a governança de pessoas, o compliance e a inteligência corporativa.
O CENÁRIO NACIONAL E OS INDICADORES DE RISCO
A urgência do tema no contexto brasileiro é ratificada pelos indicadores oficiais do Poder Judiciário e do Poder Executivo. Dados do Tribunal Superior do Trabalho (TST) e do Ministério Público do Trabalho (MPT) referentes a 2025 apontam a entrada de 18.207 denúncias de assédio moral e mais de 142,8 mil novos processos trabalhistas motivados por condutas abusivas no ambiente corporativo.
Na esfera previdenciária, o Ministério da Previdência Social e o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) registraram, no mesmo período, 28.411 concessões de auxílio-doença acidentário (código B91) especificamente vinculadas a transtornos mentais graves, como ansiedade e episódios depressivos, decorrentes do nexo causal com o trabalho.
Adicionalmente, dados da Secretaria de Inspeção do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) revelam a lavratura de 14.500 autuações fiscais decorrentes de falhas no mapeamento de riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), conforme diretrizes da Norma Regulamentadora nº 1.
Estatísticas consolidadas demonstram que a negligência sobre o clima organizacional resulta em relevante passivo financeiro, elevação do Fator Acidentário de Prevenção (FAP) e ampliação da vulnerabilidade jurídica das empresas.
O CAMINHO PARA A VIOLÊNCIA E A DINÂMICA DO LEAKAGE (SINAIS PRÉVIOS DA INTENÇÃO DE VIOLÊNCIA)
Estudos conduzidos pelo National Center for the Analysis of Violent Crime (NCAVC), do Federal Bureau of Investigation (FBI), demonstram que agressões no local de trabalho raramente decorrem de atos impulsivos e desprovidos de histórico.
Conforme explicitado na literatura especializada em segurança comportamental, o agressor percorre um fluxo previsível constituído por cinco etapas consecutivas:
Ressentimento/Mágoa → Ideação → Planejamento → Preparação → Execução
Pesquisas indicam que, em mais de 80% dos casos de violência corporativa grave, o indivíduo apresenta o fenômeno denominado leakage (vazamento), expressando ameaças veladas, comentários hostis ou intenções destrutivas a colegas de trabalho e em redes sociais semanas antes da efetivação do ato (FBI, 2017).
Em dinâmicas de alta tensão, a identificação precoce desses sinais representa uma importante janela de oportunidade para a neutralização do risco.
MATRIZ DE SINAIS DE ALERTA (RED FLAGS) E AÇÃO DE RESPOSTA
Para fundamentar a mitigação da escalada do risco, a norma ASIS WVPI AA-2020 (Workplace Violence and Active Assailant – Prevention, Intervention, and Response Standard), desenvolvida pela ASIS International, apresenta diretrizes para a identificação, avaliação, resposta e mitigação de comportamentos ameaçadores e situações de violência no ambiente de trabalho (ASIS INTERNATIONAL, 2020).

PROTOCOLOS INTEGRADOS E DESLIGAMENTO SEGURO (OFFBOARDING)
Para fortalecer a prevenção e a gestão do risco de violência no ambiente corporativo, recomenda-se que as organizações instituam um Comitê Multidisciplinar de Avaliação e Gestão de Ameaças Comportamentais (BTAM), composto, conforme a estrutura e as necessidades da organização, por representantes da Segurança Corporativa, Recursos Humanos, Departamento Jurídico e Medicina do Trabalho, podendo contar ainda com profissionais de saúde mental, Compliance, Facilities e outros especialistas.
O processo de aplicação de medidas disciplinares ou de desligamento (offboarding) de colaboradores identificados como pessoas de preocupação deve ser planejado de forma integrada ao processo de avaliação e gestão de ameaças comportamentais, especialmente quando houver indicadores de escalada do risco. Recomenda-se que o protocolo contemple, entre outras medidas, quatro dimensões operacionais:
5.1 Triagem prévia de risco
Realização de avaliação prévia do contexto e do histórico comportamental relevante, considerando ocorrências disciplinares, conflitos anteriores, manifestações de ameaça, comportamentos de perseguição e outros indicadores identificados durante o processo de avaliação. Quando pertinente, devem ser analisados também os acessos físicos e lógicos do colaborador e eventuais fatores que possam aumentar a exposição da organização durante o desligamento.
5.2 Ambiente e condução controlados
Planejamento do local, horário e dinâmica da reunião de desligamento de acordo com o nível de risco identificado. A reunião deve ocorrer em ambiente que preserve a privacidade e, simultaneamente, permita resposta rápida em caso de escalada comportamental, com acesso a suporte de segurança e rotas de saída adequadas. Em situações de risco elevado, pode ser considerada a realização do desligamento fora das áreas operacionais ou até mesmo fora das instalações da organização, conforme avaliação específica.
5.3 Gestão e revogação de acessos
Planejamento coordenado para a revogação dos acessos físicos e digitais do colaborador, incluindo crachás, credenciais, sistemas, redes, e-mail, VPN e demais recursos corporativos, de acordo com o nível de risco e com os procedimentos internos. A execução deve ocorrer de forma sincronizada com o desligamento, evitando períodos desnecessários em que o ex-colaborador permaneça com acesso às instalações ou aos sistemas da organização.
5.4 Saída controlada e gestão pós-desligamento
Acompanhamento da saída do colaborador quando o nível de risco justificar, recuperação de bens e pertences corporativos e pessoais mediante procedimento previamente definido e comunicação adequada aos profissionais que permanecerão na organização. Em situações justificadas e observados os requisitos legais e de privacidade aplicáveis, poderá ser realizado acompanhamento de informações disponíveis em fontes abertas após o desligamento, especialmente quando houver indicadores de continuidade ou escalada da ameaça.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A consolidação de uma cultura de prevenção no ambiente empresarial exige a transição de uma abordagem de segurança predominantemente reativa para um modelo preventivo, baseado em avaliação contínua de riscos, inteligência e governança de pessoas. Nesse contexto, a gestão de ameaças comportamentais amplia a capacidade da organização de identificar sinais de escalada, avaliar situações de preocupação e estabelecer respostas proporcionais antes que conflitos evoluam para incidentes críticos.
A integração entre canais de denúncia, mecanismos de escuta e reporte, gestão dos fatores de riscos psicossociais previstos na Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) e treinamento contínuo de lideranças para a identificação de comportamentos de preocupação constitui importante componente de uma estratégia corporativa de prevenção. A nova redação da NR-1, vigente desde 26 de maio de 2026, incorporou expressamente os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho ao escopo do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), reforçando a necessidade de uma abordagem organizacional e multidisciplinar para esses riscos.
A abordagem de Behavioral Threat Assessment and Management (BTAM), nesse contexto, não deve ser compreendida apenas como uma ferramenta de resposta a comportamentos ameaçadores, mas como um processo contínuo de identificação, avaliação, gerenciamento e acompanhamento de situações de preocupação. Sua efetividade depende da integração entre Segurança Corporativa, Recursos Humanos, Jurídico, Compliance, Saúde Ocupacional e, quando necessário, profissionais de saúde mental e autoridades públicas.
A experiência de modelos de Threat Assessment Teams demonstra que a atuação multidisciplinar permite reunir diferentes perspectivas, compartilhar informações relevantes, avaliar o contexto e definir responsabilidades para o gerenciamento de cada caso.
Dessa forma, a principal contribuição do BTAM para a Segurança Corporativa não está na tentativa de prever quem poderá cometer um ato de violência, mas na capacidade de reconhecer comportamentos e circunstâncias de preocupação, avaliar sua evolução e estabelecer intervenções proporcionais e fundamentadas. A identificação precoce de sinais, aliada a processos estruturados de comunicação, avaliação e gestão do risco, pode ampliar significativamente a capacidade organizacional de prevenir a escalada de conflitos e reduzir a probabilidade de ocorrência de incidentes críticos.
Guilherme Crippa Ursaia
Advogado e profissional de Segurança Corporativa, com experiência na gestão de segurança, riscos e operações em empresas multinacionais. Possui formação jurídica e pós-graduação em Gestão de Riscos de Fraudes e Compliance, além de formação executiva em Gestão e Tecnologia da Segurança da Informação, com especialização em ISO 27001. É pós-graduando em Cyber Threat Intelligence e possui formação complementar em liderança, gestão de equipes e gerenciamento de emergências.

