Segurança corporativa: suporte operacional ou assessoramento estratégico?

Por Lídia Reiss, líder do Departamento de Segurança do Banco Central do Brasil


Toda organização estrutura seu negócio para cumprir sua missão e alcançar seus objetivos. Os processos críticos que sustentam essa estratégia dependem de áreas de suporte — tecnologia da informação, segurança, logística e gestão do ambiente —, cada qual com papel definido na viabilização do negócio.

É sob essa perspectiva que a segurança corporativa ainda é compreendida em muitas organizações: como uma função de suporte destinada apenas a auxiliar a execução dos processos, especialmente os mais críticos.

Embora parcialmente correta, essa percepção desperdiça uma oportunidade valiosa: a de empregar a segurança como instrumento de assessoramento à decisão. Incorporar a segurança desde a concepção dos processos críticos permite integrar a lógica de proteção ao próprio desenho do negócio, por meio de camadas coordenadas nos planos físico, tecnológico e procedimental, ampliando a eficiência e a eficácia dos controles.

Em muitas organizações, gestores de negócio ainda tendem a acionar a segurança apenas diante de um incidente ou quando consideram necessário adotar medidas pontuais de proteção, como vigilantes, câmeras ou controles de acesso. Nessa lógica, a segurança é demandada pontualmente para fornecer recursos específicos, pensados pela própria área de negócio com base em senso comum, para proteção a processos já desenhados.

Ocorre que a segurança de um processo não se constrói com controles isolados, mas com camadas integradas e coerentes, orientadas por gestão de riscos e custo-benefício. Quando o processo já está definido e somente então se avalia como protegê-lo, o resultado tende a ser previsível: a proteção se torna mais onerosa, o processo permanece exposto ou ambas as situações ocorrem simultaneamente.

Um exemplo concreto ilustra bem esse ponto. Imagine uma organização que planeja abrir uma nova sede para abrigar serviços críticos. Com frequência, a localização é definida com base em custo e logística e só posteriormente a segurança é convocada para elaborar o projeto de proteção.

Por que os aspectos de segurança não integraram essa avaliação desde o início? Se a preocupação central era o custo, a análise de segurança deveria ter sido antecipada, pois a implantação contínua de controles tecnológicos e humanos de proteção pode ser dispendiosa, especialmente em infraestruturas críticas, que podem demandar soluções avançadas e elevados níveis de proteção. Em muitos casos, o investimento necessário para proteger uma sede mal localizada poderia, em poucos anos, ter custeado a escolha de um local mais adequado, que exigisse controles menos intensivos. Do ponto de vista estratégico, a proteção tende a ser mais eficaz e menos onerosa quando a segurança integra a concepção do empreendimento. Nesse caso, as próprias características do ambiente podem atuar como elementos de dissuasão e proteção ou, ao menos, deixar de representar fatores adicionais de risco.

Quando estão envolvidos o intercâmbio de informações, o tratamento de dados sensíveis, o uso de espaços restritos, a guarda de valores e a presença de autoridades, torna-se ainda mais evidente que a avaliação de segurança não pode se limitar a controles pontuais. Ela deve orientar-se pelos objetivos de proteção e resiliência dos processos críticos. Essa lógica sustenta também a convergência entre as dimensões física e digital da segurança, cujo elo decisivo não é a tecnologia, mas a governança que integra esforços antes isolados.

Quando a alta administração compreende esse potencial, passa a demandar da segurança uma atuação sob essa nova perspectiva. É nesse momento que se evidenciam a responsabilidade e o grau de preparação da equipe. À área de segurança caberá identificar e avaliar os riscos e recomendar seu tratamento, em parceria com os responsáveis pelos processos de negócio. Para isso, a equipe precisa reconhecer seu papel estratégico: compreender a missão institucional e os objetivos que lhe cabe proteger, atuando em parceria com as demais áreas de negócio e propondo soluções integradas e eficientes, capazes de dissuadir ameaças e mitigar vulnerabilidades.

E como preparar a segurança corporativa para esse papel? Cinco dimensões ajudam a diagnosticar sua maturidade:

  • Escopo amplo de proteção — pessoas, informações, valores, patrimônio e continuidade dos processos críticos são considerados de forma integrada nas avaliações de riscos.

  • Inteligência antecipatória — a prospecção de cenários e a identificação antecipada de ameaças orientam o mapeamento de riscos e as prioridades de atuação.

  • Discernimento tecnológico — as soluções são selecionadas de acordo com os riscos que devem mitigar, e não pelo seu grau de novidade, considerando sua adequação ao contexto e o conhecimento do mercado de segurança.

  • Integração operacional — recursos tecnológicos, processos e atuação humana funcionam de forma coordenada, sob uma visão orientada a riscos e à relação custo-benefício.

  • Postura estratégica — a área de segurança identifica proativamente oportunidades de contribuir para os processos de negócio e direciona seus recursos para resultados concretos de proteção e resiliência.

A segurança corporativa é uma disciplina construída a partir de uma longa trajetória de profissionalização. Ao longo desse processo, a gestão de riscos, a avaliação de cenários, a resiliência e a proteção de ativos críticos tornaram-se elementos constitutivos de sua atuação e de seu processo decisório. A combinação entre o conhecimento acumulado, a conexão com diferentes disciplinas estratégicas e a profissionalização do setor constitui um diferencial da segurança corporativa ainda subutilizado pelas organizações. Por isso, incorporar a segurança ao assessoramento estratégico não é apenas uma evolução natural de seu papel: é uma necessidade para organizações que buscam proteger seus objetivos e fortalecer sua resiliência.



Lídia Reiss
Com mais de 20 anos de experiência na área de segurança, lidera, desde 2019, o Departamento de Segurança do Banco Central do Brasil. Atua em gestão de riscos e crises, inteligência estratégica, segurança da informação, segurança executiva e operações críticas em dez capitais brasileiras, à frente de uma equipe multidisciplinar com mais de mil profissionais.


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