Imagine entrar no TikTok e se deparar com um anúncio de uma pistola capaz de derrubar drones militares apresentada com o mesmo entusiasmo de quem vende um aspirador de pó. É exatamente isso que está acontecendo na plataforma. Pequenos fabricantes chineses passaram a usar o aplicativo para comercializar equipamentos anti-drone com aplicações militares, segundo apuração da revista americana Wired.
Os produtos vão desde mochilas equipadas com 12 antenas até dispositivos capazes de interferir em sistemas de navegação por satélite de vários países ao mesmo tempo — incluindo o GPS americano, o sistema russo GLONASS e o europeu Galileo. Alguns equipamentos combinam três funções: detectar drones, bloquear seus sinais e falsificar sua localização, fazendo a aeronave acreditar que está em outro lugar.
Tecnologia de guerra com cara de e-commerce
O que chama atenção não é apenas o que é vendido, mas como. Os vídeos têm trilhas animadas, legendas em inglês, russo e ucraniano, e apresentadores que falam sobre bloqueadores de sinal com a mesma desenvoltura de um influenciador de beleza. Não há referências explícitas a conflitos armados: os produtos são descritos como soluções para “áreas de mineração” ou “depósitos de petróleo”.
Houbing Herbert Song, professor de engenharia da Universidade de Maryland especializado em tecnologia anti-drone, avaliou os produtos para a Wired e explicou que a descrição genérica não condiz com a forma como esse tipo de equipamento é normalmente especificado. Segundo ele, qualquer aplicação real exigiria dados sobre distância de alcance, velocidade dos drones-alvo e capacidade de lidar com múltiplos aparelhos ao mesmo tempo. Nenhum dos produtos analisados seria capaz de conter grandes enxames de drones.
O elo chinês na guerra de drones
O contexto por trás desse mercado é o conflito entre Rússia e Ucrânia, que transformou os drones em peça central da guerra moderna. Ambos os países ampliaram sua produção doméstica, mas ainda dependem de componentes fabricados em Shenzhen, polo industrial chinês. Processadores, câmeras e módulos de comunicação usados pelos dois lados do conflito vêm majoritariamente das mesmas fábricas.
A China proíbe exportações de tecnologia de uso duplo (civil e militar) e endureceu essas regras diversas vezes desde 2022. Em setembro de 2024, ampliou os controles para incluir controladores de voo e motores usados em drones de combate. Os Estados Unidos, no mesmo período, sancionaram duas empresas chinesas por supostamente abastecer a Rússia.
Mesmo assim, o fluxo não parou. No primeiro semestre de 2024, a China declarou oficialmente ter vendido cerca de US$ 200 mil em drones à Ucrânia. O governo ucraniano estima que o valor real seja próximo de US$ 1,1 bilhão, uma diferença que, segundo Aosheng Pusztaszeri, pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), indica que “drones montados e componentes podem entrar na Ucrânia via vendedores terceirizados”, como ele afirmou à Wired.

