Por Alan Fernandes, mestre em Criminologia, jornalista e gerente de Segurança no Banco Santander
A que ponto chegaremos quando as máquinas não apenas pensarem por nós, mas também começarem a fazer aquilo que sempre fizemos com as próprias mãos?
Essa pergunta surgiu durante um almoço que tive ontem com meu diretor. Em meio a uma conversa sobre tecnologia e os rumos da inteligência artificial, entramos em um assunto que merece cada vez mais atenção: a velocidade com que atividades tradicionalmente desempenhadas por pessoas estão sendo transferidas para sistemas inteligentes e máquinas.
O que mais chama a atenção é que essa transformação já não está limitada aos escritórios, às empresas ou às telas dos computadores. Estamos começando a falar de robôs que podem acompanhar idosos, auxiliar pessoas com limitações físicas, organizar uma casa, preparar refeições e executar tarefas cotidianas que, até pouco tempo, pareciam depender exclusivamente da presença humana.
A inteligência artificial está deixando de ser apenas uma ferramenta que responde perguntas, escreve textos ou produz imagens. Ela começa a ganhar capacidade de interagir com o mundo físico, interpretar ambientes e executar ações.
E isso muda a dimensão da discussão.
Se antes a grande preocupação era saber quantas profissões poderiam ser impactadas pela automação, agora precisamos ampliar a pergunta: o que acontecerá quando a tecnologia começar a ocupar espaços que vão muito além do trabalho, chegando à intimidade das nossas casas, ao cuidado com nossos familiares e às próprias relações humanas?
O sonho de criar máquinas à imagem do homem
Embora essa realidade pareça recente, o desejo de construir máquinas capazes de reproduzir características humanas acompanha a humanidade há séculos.
Na mitologia grega, Talos, o gigante de bronze que protegia a ilha de Creta, já representava a ideia de uma criatura artificial. Mais tarde, inventores como Leonardo da Vinci projetaram mecanismos humanoides, enquanto engenheiros desenvolveram autômatos capazes de reproduzir movimentos de animais e pessoas.
Em 1920, o escritor tcheco Karel Čapek popularizou a palavra robô em sua peça teatral R.U.R., na qual seres artificiais eram criados para executar o trabalho humano. Curiosamente, a história já abordava o risco de as criaturas se voltarem contra seus próprios criadores.
A ficção parecia antecipar questões que ainda hoje discutimos.
O avanço científico, entretanto, transformaria esse imaginário em realidade. Em 1950, Alan Turing questionou se as máquinas poderiam pensar. Seis anos depois, o encontro de Dartmouth, nos Estados Unidos, estabeleceu um marco para o nascimento formal da inteligência artificial como campo de pesquisa.
A partir dali, o desafio deixou de ser apenas construir máquinas que repetissem movimentos e passou a incluir a possibilidade de reproduzir processos de aprendizagem, raciocínio e tomada de decisão.
Em 1961, o Unimate começou a operar em uma fábrica da General Motors, tornando-se um marco da automação industrial. Décadas depois, em 2002, o lançamento do aspirador robótico Roomba levou a automação para dentro das residências.
E chegamos a novembro de 2022, quando o lançamento público do ChatGPT popularizou uma nova geração de inteligência artificial, capaz de conversar, produzir conteúdos, analisar informações e auxiliar em atividades intelectuais.
Agora, estamos diante de uma nova etapa: integrar essa capacidade de processamento e interpretação a máquinas que possam agir fisicamente.
Quando a inteligência artificial ganha braços e pernas
A combinação de inteligência artificial generativa, visão computacional, sensores e robótica está permitindo desenvolver equipamentos cada vez mais sofisticados.
Empresas como Figure AI e 1X Technologies trabalham em robôs humanoides que poderão executar tarefas em ambientes domésticos. No Japão, pesquisas como o projeto AIREC buscam desenvolver máquinas capazes de auxiliar no cuidado de idosos e pessoas com limitações físicas.
Nos Estados Unidos, o ElliQ já oferece companhia, lembretes e estímulos à interação para pessoas idosas. Não é um humanoide que caminha pela casa, mas representa uma aplicação concreta da inteligência artificial na assistência cotidiana.
Esses exemplos demonstram que a tecnologia começa a ultrapassar os limites da automação tradicional.
Imagine solicitar a um robô que organize um quarto, recolha roupas, prepare uma refeição ou auxilie um familiar com dificuldades de locomoção. Para executar essas atividades, ele precisará compreender comandos, reconhecer objetos, interpretar o ambiente e planejar movimentos.
Ainda estamos longe de máquinas capazes de realizar todas essas tarefas com a mesma flexibilidade de uma pessoa. Existem limitações de custo, segurança, autonomia e adaptação a situações inesperadas. Mas o caminho tecnológico já está sendo construído.
O que será do ser humano nesse cenário?
Talvez essa seja a questão mais importante de toda essa transformação.
Se robôs conseguirem assumir atividades domésticas, auxiliar no cuidado de idosos, participar de processos educacionais e executar tarefas físicas, o impacto não ficará restrito ao mercado de trabalho.
Poderá alcançar a organização das famílias, as relações sociais e a própria maneira como entendemos a presença humana.
Imagine uma geração que cresça tendo um robô como companhia diária. Ou idosos que encontrem nessas máquinas uma alternativa para manter parte de sua autonomia. Imagine residências nas quais equipamentos inteligentes executem atividades que hoje exigem horas de dedicação das pessoas.
Por outro lado, precisamos discutir o risco de isolamento, a dependência tecnológica, a privacidade e a responsabilidade sobre as decisões tomadas pelas máquinas.
Um robô poderá lembrar alguém de tomar um medicamento, identificar uma queda e acionar ajuda. Mas poderá substituir o carinho de um familiar, a atenção de um cuidador ou a sensibilidade de um profissional diante de uma pessoa em sofrimento?
A tecnologia pode reproduzir comportamentos e oferecer assistência, mas não devemos confundir capacidade de execução com experiência humana.
Também será necessário discutir quem terá acesso a essas inovações. Afinal, os primeiros robôs domésticos sofisticados provavelmente terão custos elevados, o que poderá ampliar a distância entre aqueles que conseguem usufruir dos benefícios da tecnologia e aqueles que permanecem à margem dela.
O futuro que ainda não conseguimos prever
É praticamente impossível estabelecer até onde essa evolução chegará. Talvez, daqui a algumas décadas, seja tão comum encontrar um robô em uma residência quanto hoje é encontrar um computador ou um aparelho celular.
Talvez determinadas profissões desapareçam, outras sejam transformadas e novas atividades surjam. Talvez máquinas inteligentes participem de maneira tão natural da nossa rotina que deixemos de perceber o quanto dependemos delas.
Mas existe uma reflexão que considero inevitável: durante séculos, o homem desenvolveu máquinas para facilitar sua existência. Agora, começa a criar sistemas capazes de assumir atividades que vão além do esforço físico, alcançando também a interação, a assistência e a convivência.
O homem sempre sonhou em criar algo à sua imagem. Agora, começa a descobrir o que acontece quando essa criação deixa de ser apenas uma representação e passa a participar da sua própria vida.
A pergunta que fica não é apenas até onde a inteligência artificial poderá chegar, mas até que ponto estaremos dispostos a permitir que ela ocupe espaços que, até hoje, considerávamos exclusivamente humanos.

Alan Fernandes é mestre em Criminologia, jornalista e gerente de Segurança no Banco Santander. Possui formação em inteligência, investigação de crimes eletrônicos, cibersegurança e estratégia, com atuação em instituições civis e militares de referência. Palestrante nacional e internacional, dedica-se ao estudo da segurança bancária, gestão de riscos, fraudes financeiras e criminalidade organizada. É autor do livro Do Outro Lado do Muro e organizador da obra Polícia e Sociedade.

