O perigo de administrar a sua empresa com a gestão de dez anos atrás

Por Adalberto Bem Haja


Ao contrário do que muitas pessoas pensam, a maioria das empresas não entra em dificuldade por falta de clientes ou de trabalho, mas porque chegam ao limite justamente no auge do movimento, com a agenda cheia, contratos assinados e a equipe operando sem folga, porque a forma de administrar deixou de acompanhar o tamanho que o negócio alcançou e a velocidade com que o mercado passou a se mover. Esse descompasso entre a gestão e a realidade da operação avança de maneira silenciosa, e representa uma ameaça mais perigosa do que qualquer concorrente que uma empresa possa ter.

Basta colocar lado a lado o cenário de uma década atrás e o atual: o cliente que antes aceitava propostas genéricas hoje chega informado, compara fornecedores em minutos, exige relatórios, cobra prazos e questiona cada item do orçamento. As margens que antes acomodavam ineficiências encolheram, pressionadas pela concorrência e pelo aumento dos custos, e não existe mais gordura para queimar. Além disso, contratar ficou mais difícil, porque os bons profissionais estão disputados, e reter ficou ainda mais desafiador.

Ao mesmo tempo, a complexidade dos negócios cresceu, os processos se multiplicaram, os contratos ficaram mais sofisticados, as exigências legais aumentaram, e o volume de informação circulando dentro de qualquer empresa, entre propostas, contratos, atendimentos, prazos e dados de clientes, se tornou grande demais para ser administrado da mesma forma que se fazia quando a operação era menor e o mercado, mais simples.

Apesar de toda essa transformação, uma parte expressiva das empresas continua operando sobre três pilares frágeis: o WhatsApp, a planilha e a memória do dono. A demanda do cliente chega pelo WhatsApp e se perde entre dezenas de conversas; o controle financeiro vive em uma planilha que só uma pessoa sabe alimentar; o histórico dos clientes, os compromissos assumidos e as particularidades de cada contrato estão guardados na cabeça do empresário ou de um funcionário antigo, e desaparecem no momento em que essa pessoa sai de férias, adoece ou pede demissão.

Esse modelo funcionou durante muito tempo, e é justamente por ter funcionado que ele é tão difícil de abandonar. O empresário construiu o negócio assim, cresceu assim e desenvolveu uma confiança natural na própria experiência e na própria intuição, o problema é que essa experiência foi calibrada em um mercado que não existe mais, e as decisões que davam certo no passado davam certo em um contexto de margens folgadas, clientes menos exigentes e operações mais simples.

No contexto atual, decidir apenas com base no que sempre funcionou é dirigir olhando pelo retrovisor.

– A administração improvisada cobra um preço que não aparece em nenhum boleto, mas sim no resultado;

– O atendimento esquecido vira cliente perdido; a proposta feita sem conhecer o custo real vira contrato com margem negativa descoberta tarde demais;

– A informação concentrada em uma pessoa vira dependência e risco;

– A ausência de dados sobre a própria operação vira decisão no escuro, e decisão no escuro, em um mercado de margens apertadas, é a diferença entre o lucro e o prejuízo do ano.

O mais grave é que esse custo cresce junto com a empresa, porque quanto maior a operação, mais caro fica cada processo que depende de memória. Empresas que crescem sem organizar a gestão não estão crescendo de verdade, estão apenas ampliando a escala dos próprios problemas.

Informação como base da decisão

A transição que separa as empresas que vão continuar crescendo das que vão ficar pelo caminho não é uma questão de tamanho, de capital ou de tempo de mercado, é uma questão de método.

De um lado estão os negócios administrados pela intuição e pelo hábito, onde as decisões repetem o que sempre foi feito.

De outro estão os que aprenderam a registrar, organizar e usar a informação da própria operação para decidir: quais clientes dão lucro e quais dão prejuízo, quais serviços têm margem e quais consomem recursos, onde o processo trava, o que o histórico revela sobre o futuro.

A experiência continua sendo um ativo valioso, e nenhum sistema substitui o conhecimento que o empresário acumulou sobre o seu mercado, mas a experiência precisa deixar de ser a única fonte da decisão, o empresário que enxerga o próprio negócio com clareza, com dados organizados e informação confiável, decide melhor, erra menos e corrige mais rápido do que aquele que administra de memória.

As empresas que continuarão crescendo serão aquelas que aprenderem a tomar decisões baseadas em informação, e não apenas em experiência. As demais vão continuar culpando a concorrência, o mercado, o governo, por um risco que, desde o início, esteve “dentro de casa”.

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