Dados imprecisos e falta de sistema único integrado ainda nos deixam no escuro contra a violência

Por Marco Antônio Barbosa, especialista em segurança e diretor da CAME do Brasil


A tecnologia e a precisão que ela nos traz faz com que cada vez mais trabalhemos com dados para o planejamento das ações em diferentes setores. Não existe mais estratégia traçada na base do achismo. Toda empresa ou governo utiliza informações para diminuir os riscos de gastos desnecessários para alcançar os seus resultados. Deveria ser assim também na segurança pública.

Mas a realidade ainda está longe disso no Brasil neste segmento. A falta de um sistema único integrado por todo o país e entre as polícias faz com que não tenhamos um panorama realista da situação atual da violência.

O último Atlas da Violência 2026, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), mostra que foram registrados 42.590 homicídios oficialmente em solo nacional no ano passado, o equivalente a 20,1 assassinatos a cada 100 mil habitantes. Com isso, existe uma redução de 7,4% em relação a 2023, quando o Brasil havia contabilizado 45.747 homicídios.

Entretanto, o próprio Atlas faz uma ressalva, pois o Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde, traz um dado de mortes violentas não identificadas. Ou seja, sem uma causa explicada para as suas ocorrências.

Se esse valor for considerado, o Brasil teria somado 49.673 homicídios estimados em 2024 e a taxa passaria a 23,4 mortes por 100 mil habitantes. Neste cenário, a queda em relação a 2023 foi de apenas 0,4%, bem menor do que a redução de 7,4% apontada pelos registros oficiais. E esses homicídios ocultos, como denomina o relatório, mais que dobraram de um ano para outro.

Sem dados realmente concretos, o Atlas da Violência ou qualquer órgão de segurança não consegue traduzir, de fato, como está a criminalidade no país, quais regiões precisam de mais atenção, para onde destinar a verba de forma correta e por aí vai. É um barco navegando, mas sem sabermos ao certo se encontraremos um iceberg pela frente.

Enquanto a criminalidade age cada vez mais integrada e com braços atuando em todo o mundo, a segurança pública continua sem dialogar entre todas as suas esferas. Dados imprecisos, ações pontuais e localizadas, estratégias que não se conversam de norte a sul.

A inteligência deve ser essencial por trás de todo o planejamento para entender onde estamos, para onde vamos e como devemos agir para chegar até lá. A obtenção de informações e dados corretos é o primeiro passo para que isso seja feito baseado na realidade. Se pecarmos nisso, todas as ações estarão alicerçadas apenas em opiniões.

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