Violência muda de perfil no Brasil: queda dos homicídios convive com alta dos golpes digitais, feminicídios e letalidade policial

O Brasil alcançou em 2025 o menor índice de mortes violentas intencionais dos últimos 14 anos, antecipando a meta nacional prevista para 2027. O dado, divulgado pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, representa um avanço importante, mas está longe de significar que o país vive um cenário de maior segurança. Enquanto os homicídios seguem em queda, crescem os golpes eletrônicos, os feminicídios e as mortes decorrentes de intervenção policial, evidenciando que a violência brasileira mudou de perfil e exige respostas mais sofisticadas do Estado.

Para o advogado criminalista e sócio da Advocacia Pimentel André Fini Terçarolli, a principal conclusão do levantamento é que a política de segurança pública precisa deixar de tratar a criminalidade como um fenômeno único. “Os números mostram que o Brasil conseguiu avançar no enfrentamento dos homicídios, mas isso não significa que a violência tenha diminuído como um todo. Hoje convivemos com uma criminalidade muito mais diversificada, que exige estratégias específicas para cada realidade. O modelo utilizado para reduzir assassinatos não é suficiente para combater fraudes eletrônicas, prevenir feminicídios ou enfrentar organizações criminosas”, afirma.

O especialista explica que a redução das mortes violentas resulta de uma combinação de fatores, como integração entre as forças de segurança, uso de inteligência policial, definição de metas e políticas públicas contínuas, e não apenas do endurecimento da legislação. Segundo ele, a continuidade dessas ações é fundamental para consolidar os resultados alcançados.

Outro dado que chama atenção é a consolidação do estelionato como o principal crime patrimonial do país. Em 2025, foram mais de 2,2 milhões de ocorrências, impulsionadas principalmente por golpes praticados por meio de aplicativos de mensagens, falsas centrais bancárias, Pix e uso indevido de dados pessoais. Embora a legislação tenha evoluído para acompanhar esse tipo de crime, o número de investigações e processos ainda permanece muito baixo.

Na avaliação de Terçarolli, o desafio está menos na criação de novos crimes e mais na capacidade de investigação e articulação entre os órgãos responsáveis. “O Direito Penal, sozinho, não resolve a expansão dos golpes digitais. É indispensável fortalecer a inteligência policial, integrar bancos, plataformas digitais e órgãos de investigação, além de acelerar o bloqueio de valores e a identificação dos responsáveis. Sem capacidade de resposta rápida, a legislação perde grande parte da sua efetividade”, diz.

O Anuário também revela um cenário preocupante em relação à violência de gênero. Apesar da redução dos homicídios de mulheres, os feminicídios continuaram crescendo em 2025, acompanhados pelo aumento das tentativas de feminicídio, dos casos de violência psicológica, perseguição e descumprimento de medidas protetivas. Para o especialista, os dados demonstram que a atuação estatal precisa priorizar mecanismos preventivos e garantir o cumprimento efetivo das decisões judiciais.

Outro ponto destacado pelo levantamento é o crescimento das mortes decorrentes de intervenção policial, que atingiram o maior número da série histórica iniciada em 2016. Para Terçarolli, o fortalecimento do combate ao crime organizado deve caminhar ao lado de mecanismos de controle da atividade policial, planejamento operacional e uso intensivo de inteligência. “Esse enfrentamento depende de operações qualificadas, investigação patrimonial e integração entre as instituições. A eficiência da segurança pública deve ser medida pela capacidade de enfraquecer financeiramente as facções e reduzir sua atuação territorial, e não apenas pelo número de confrontos ou de mortes em operações policiais”, conclui.

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