Segurança corporativa precisa sair do papel

Por Ellen Pompeu, diretora executiva da ICTS Security


Estamos vivendo um momento de transição. Ainda vejo muitas empresas tratando segurança corporativa como um custo, algo que só vira pauta de diretoria quando algo grave já aconteceu. E, infelizmente, em muitos casos, é preciso que algo muito sério ocorra para que o tema finalmente ganhe o espaço que merece. Foi assim com o caso do CEO de uma seguradora, morto em Nova York. De repente, conselhos administrativos e altos executivos começaram a se perguntar: “quais os riscos reais que estamos correndo?”.

A verdade é que as ameaças não são mais pontuais nem previsíveis. O aumento da criminalidade, as extorsões empresariais, os roubos organizados e até os conluios internos se tornaram cada vez mais comuns e complexos. Não estamos mais falando apenas de crimes de oportunidade. Estamos diante de ações estruturadas, planejadas, com inteligência e foco financeiro. Empresas têm sido ameaçadas por criminosos que exigem pagamentos mensais sob pena de ataques, muitas vezes com envolvimento de organizações como milícias e facções. Isso não é mais um cenário de exceção. É o novo normal.

Nesse contexto, a segurança precisa ser tratada como uma área crítica, parte do core business, e não como despesa periférica. Não é exagero dizer que a continuidade de um negócio pode depender diretamente da maturidade com que ele lida com sua estrutura de proteção. Isso exige estratégia, análise, plano de ação e integração com outras áreas-chave da empresa, e não só câmeras e alarmes.

A atuação da segurança corporativa hoje está fortemente conectada ao compliance, jurídico, tecnologia, RH e comunicação. Essa transversalidade é essencial para prevenir riscos, responder a crises e, principalmente, criar uma cultura organizacional atenta à ética, ao cuidado com as pessoas e à proteção de ativos.

E isso se reflete, também, na evolução do perfil dos profissionais da área. Hoje, quem lidera a segurança precisa ser alguém que entende de processos, pessoas e tecnologia, mas, acima de tudo, que saiba fazer leitura de cenários, antecipar ameaças e propor soluções baseadas em dados. É um papel estratégico. Quem ainda atua apenas no operacional está ficando para trás.

Não dá mais para contar apenas com a sorte. O famoso “nunca aconteceu nada aqui” não é estratégia. Segurança é investimento e dos mais inteligentes. Porque quando a prevenção falha, a conta chega. E ela costuma ser alta: prejuízo financeiro, perda de reputação, paralisação de operações, impacto direto no valor da marca.

Além disso, a segurança também precisa estar integrada à governança e ao ESG. Empresas que se dizem comprometidas com boas práticas precisam ter coerência entre discurso e ação. Não adianta buscar certificações se, na prática, faltam políticas claras, treinamento de equipes ou se ações sociais são feitas fora do compliance. Governança também se faz com segurança.

O que eu tenho defendido nas empresas é simples: precisamos elevar o nível de maturidade no tema. Mapear riscos reais. Priorizar investimentos. Tratar segurança como fator de continuidade. E, acima de tudo, criar ambientes mais protegidos, mais preparados e mais conscientes. Antes que o problema venha cobrar o preço da negligência.


Ellen Pompeu é sócia-diretora da ICTS SECURITY, empresa especializada em soluções de segurança corporativa e eventos. Formada pela Escola de Engenharia Mauá, possui MBA em Administração Geral de Empresas pela Faculdade de Engenharia Mauá e Mestrado em Habitação pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Governo do Estado de São Paulo.

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