O maior desafio no combate às fraudes: jogar um jogo em que apenas um lado segue as regras

Por Alan Fernandes


Ao final de mais uma edição do Fraud Prevention Days, em Quito, uma conclusão ficou evidente: os problemas relacionados às fraudes são muito mais semelhantes do que diferentes, independentemente do país ou da maturidade do mercado.

Em praticamente todos os debates, surgiram desafios comuns. Reguladores cada vez mais rigorosos e processos burocráticos, embora fundamentais para reduzir riscos, acabam impactando a velocidade de resposta das instituições. Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com as ameaças internas (insiders), que possuem acesso privilegiado e podem potencializar prejuízos.

Outro ponto recorrente foi o protagonismo da engenharia social. Ela continua sendo a principal porta de entrada para inúmeras fraudes, explorando não falhas tecnológicas, mas vulnerabilidades humanas. Quanto mais evoluem as ferramentas de segurança, mais os criminosos investem em manipular pessoas.

Também ficou claro que a integração entre instituições financeiras, empresas, órgãos reguladores e forças de segurança ainda está distante do ideal. Embora existam avanços importantes, eles não acontecem na mesma velocidade com que organizações criminosas compartilham informações, recursos e estratégias.

Talvez o maior dilema das áreas de prevenção a fraudes seja justamente equilibrar interesses que parecem conflitantes: proteger sem burocratizar, reduzir riscos sem comprometer a experiência do cliente e agir com rapidez sem abrir mão da governança.

Enquanto isso, do outro lado, os criminosos não enfrentam essas limitações. Eles não precisam cumprir normas, não respondem a auditorias, não seguem processos internos e tampouco se preocupam com a experiência do cliente. Contam com tempo, recursos financeiros, estruturas organizadas e, muitas vezes, informações privilegiadas para planejar seus ataques.

Essa assimetria torna a disputa desigual. Por isso, combater fraudes exige muito mais do que tecnologia. Exige integração, compartilhamento de inteligência, cooperação entre os setores público e privado e, principalmente, velocidade.

Se há uma lição que levo deste evento é que o combate às fraudes deixou de ser um desafio local. É um problema global que exige respostas igualmente globais. E, enquanto estivermos divididos por burocracias e barreiras institucionais, os criminosos continuarão se beneficiando daquilo que fazem melhor: atuar de forma integrada, rápida e sem regras.



Alan Fernandes é mestre em Criminologia, jornalista e gerente de Segurança no Banco Santander. Possui formação em inteligência, investigação de crimes eletrônicos, cibersegurança e estratégia, com atuação em instituições civis e militares de referência. Palestrante nacional e internacional, dedica-se ao estudo da segurança bancária, gestão de riscos, fraudes financeiras e criminalidade organizada. É autor do livro Do Outro Lado do Muro e organizador da obra Polícia e Sociedade.

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