Por Alan Fernandes
Fraudes bancárias são cada vez mais sofisticadas. Mas, curiosamente, muitas delas não exigem que o criminoso seja um grande hacker. Às vezes, basta ser um bom conversador.
É a chamada engenharia social: a capacidade de manipular alguém por meio de palavras, emoções e situações cuidadosamente construídas. O criminoso não invade o sistema. Ele convence o usuário a abrir a porta.
E os números mostram a dimensão do problema. Em 2023, foram registrados cerca de 1,9 milhão de estelionatos no Brasil, mais que o dobro dos roubos. Uma pesquisa do DataSenado, divulgada em 2024, apontou que 24% dos brasileiros com mais de 16 anos haviam perdido dinheiro em crimes cibernéticos nos 12 meses anteriores, o equivalente a mais de 40 milhões de pessoas.
Mas existe um componente dessa história que precisa ser discutido: a responsabilidade individual na prevenção.
Não se trata de culpar quem foi vítima. Golpistas são profissionais em explorar medo, confiança, pressa, vaidade e ganância. Porém, em muitos casos, o criminoso não precisou roubar informação alguma. Nós mesmos entregamos.
Veja o famoso falso brinde. A pessoa recebe uma ligação dizendo que ganhou um presente. Fica feliz, afinal, quem não gosta de ganhar alguma coisa? Depois, para “confirmar a entrega”, pedem seus dados e uma selfie segurando o documento. E pronto: o golpista acaba de ganhar, voluntariamente, uma fotografia que pode ser muito mais valiosa do que o suposto brinde.
É quase uma selfie patrocinada pelo criminoso.
Na falsa central bancária, a situação é ainda mais curiosa. O golpista liga, informa que houve uma compra suspeita e, com a autoridade de quem parece conhecer todos os detalhes da conta, começa a dar instruções. Em alguns casos, o cliente chega a acreditar mais no golpista do que no próprio gerente.
O criminoso conseguiu construir mais credibilidade em cinco minutos do que o banco em anos de relacionamento.
No golpe do falso motoboy, alguém liga dizendo que o cartão foi fraudado e que um funcionário será enviado para recolhê-lo. O cliente entrega o cartão — e, algumas vezes, até a senha.
Convenhamos: se alguém aparecer na sua porta pedindo seu cartão e sua senha “para proteger sua conta”, talvez seja exatamente o momento de começar a desconfiar.
Há também os golpes que exploram outro velho conhecido do comportamento humano: a vontade de levar vantagem. É o consórcio barato demais, a carta de crédito imperdível, o veículo muito abaixo do mercado. A oportunidade parece tão boa que a pessoa esquece de fazer a pergunta mais importante: “Por que alguém venderia isso tão barato?”
Quando a possibilidade de ganhar dinheiro é grande demais, o senso crítico costuma pedir licença.
Todos esses golpes são diferentes, mas têm algo em comum: o criminoso cria uma situação para impedir que a vítima pense antes de agir.
Medo. Pressa. Ganância. Curiosidade. Vaidade. Confiança.
Por isso, talvez o principal mecanismo de segurança não esteja no aplicativo do banco, no celular ou em uma sofisticada tecnologia de autenticação.
Está no bom senso.
Precisamos aprender a desconfiar de situações inesperadas que envolvam dinheiro, documentos, senhas ou informações pessoais. Recebeu uma ligação do banco? Desligue e procure o banco pelo canal oficial. Recebeu uma mensagem urgente? Não clique imediatamente. Encontrou uma oportunidade extraordinária? Pesquise antes. Alguém pediu sua senha, código, cartão ou uma transferência? Pare.
Quem está tentando proteger seu dinheiro não deveria precisar que você entregue justamente aquilo que permite movimentá-lo.
Prevenção também é educação. É ensinar familiares, funcionários e clientes a reconhecer comportamentos suspeitos. É entender que senha não se compartilha, que banco não pede
códigos de autenticação e que, diante de uma dúvida, a melhor decisão muitas vezes é simplesmente não fazer nada até confirmar.
As instituições financeiras, evidentemente, também têm responsabilidade. Precisam investir em tecnologia, monitoramento, autenticação e mecanismos cada vez mais eficientes de prevenção. Segurança não pode ser transferida integralmente para o usuário.
Mas nenhuma tecnologia será suficiente se conseguirmos convencer o próprio usuário a autorizar a fraude.
E os criminosos continuarão evoluindo. Se hoje clonam vozes, amanhã poderão reproduzir rostos. Se hoje enviam mensagens falsas, amanhã poderão criar vídeos convincentes. A tecnologia do golpe não vai mudar… já mudou.
O princípio, porém, continuará o mesmo: fazer alguém acreditar em uma mentira.
Por isso, talvez a pergunta mais importante diante de qualquer situação suspeita seja também a mais simples:
“Isso faz sentido?”
Se não fizer, pare.
Se parecer bom demais, desconfie. Se estiver com pressa, espere.
Se houver dúvida, procure o canal oficial.
Porque o criminoso pode conhecer tecnologia, sistemas bancários e engenharia social. Mas existe uma coisa que ele não deveria conseguir controlar:
a sua decisão de não agir até ter certeza.
No combate às fraudes bancárias, talvez o antivírus mais eficiente ainda seja aquele que não precisa de atualização:
o bom e velho desconfiômetro.

