Mercado de monitoramento eletrônico movimenta R$ 14 bilhões no Brasil

Setor de segurança eletrônica cresce no país e novas tecnologias vêm sendo desenvolvidas para aprimorar resultados


No final de 2024, 122.102 pessoas estavam sendo monitoradas por tornozeleiras eletrônicas no Brasil, segundo dados da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen). O dispositivo, que pesa pouco mais de 128 gramas e utiliza GPS e modem com transmissão de dados via rede celular, tornou-se não apenas uma alternativa às prisões tradicionais, mas também um vetor de crescimento para o setor de tecnologia e segurança eletrônica.

Dos monitorados, 87,95% eram homens (107.393), enquanto 14.709 eram mulheres. Mas o impacto vai além dos números do sistema penitenciário: o mercado global de soluções de monitoramento de infratores já movimenta US$ 2,18 bilhões em 2025, com projeções de alcançar US$ 3,19 bilhões até 2030, segundo estudo da Mordor Intelligence.

No Brasil, o segmento acompanha esse ritmo. A Associação Brasileira das Empresas de Sistemas Eletrônicos de Segurança (Abese) calcula que o setor, que inclui câmeras, biometria, bodycams, portarias remotas e tornozeleiras, tenha faturado R$ 14 bilhões em 2024.

O modelo de negócio da UE Brasil

Uma das protagonistas do setor é a UE Brasil Tecnologia, empresa de Brasília responsável, entre outros contratos, pelo fornecimento da tornozeleira usada atualmente pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, réu na investigação da tentativa de golpe para impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Com um modelo de negócio baseado principalmente na locação de dispositivos e sistemas de georreferenciamento para governos estaduais e federal, a empresa destaca que todo o monitoramento é operado pelos contratantes, mas o fornecimento de tecnologia e equipamentos fica sob sua responsabilidade.

“Nosso crescimento acompanha a expansão da demanda por monitoramento eletrônico no país, impulsionada por políticas públicas e decisões judiciais. Investimos em tecnologia própria e desenvolvimento local, com foco em soluções de alta engenharia”, afirmou a empresa em nota enviada a PEGN.

Atualmente, a UE Brasil mantém contratos ativos em estados das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, e aposta em inovação para diferenciar seus produtos. Entre os recursos embarcados estão:

• GNSS (Global Navigation Satellite System), para localização via satélite;

• Alarmes de violação e comunicação criptografada, garantindo segurança e privacidade;

• Integração com sistemas de gestão prisional e segurança pública;

• Botões de emergência e soluções voltadas à proteção individual.

O setor também acompanha tendências globais como Inteligência Artificial para análise preditiva, Internet das Coisas (IoT) para integração de dispositivos e o avanço das legislações de proteção de dados, que exigem compliance em todas as etapas da operação.

Mercado crescente

Em entrevista a PEGN, Selma Migliori, presidente da Abese, explica como funciona o dispositivo: “A tornozeleira cria uma cerca virtual ao redor do usuário. Se ele ultrapassa o perímetro definido pela decisão judicial, o sistema envia um alerta imediato para a central de monitoramento.”

O modelo mais comum utiliza GPS ativo, transmitindo dados 24 horas por dia para uma central. Existem também versões que permitem zonas de inclusão e exclusão, disparando alarmes caso o usuário entre em áreas proibidas, e modelos offline, que gravam dados e enviam posteriormente quando conectados à rede.

Além disso, segundo Migliori, empresas do setor estão investindo em soluções que incorporam GLONASS, triangulação de antenas celulares e algoritmos de correção de rota, garantindo precisão mesmo em áreas de difícil cobertura. Nesses casos, a conectividade é feita por chips M2M (machine to machine), os mesmos usados em dispositivos de Internet das Coisas (IoT).

Migliori pontua que o crescimento do mercado vem acompanhado de uma pressão por sistemas cada vez mais seguros. As tornozeleiras contam com sensores de rompimento, alarmes de violação e alertas automáticos, que disparam sempre que há tentativas de manipulação ou falhas de sinal.

O setor é regulado por contratos públicos licitados e cada unidade pode custar de R$ 300 a R$ 500 por mês em serviços de monitoramento, além de despesas de software e infraestrutura.

A presidente da Abese reforça que, mesmo quando figuras públicas utilizam tornozeleiras eletrônicas, o equipamento segue o mesmo padrão de monitoramento aplicado a qualquer outra pessoa. “Nesses casos, a atenção dentro das Centrais de Monitoramento e Rastreamento é redobrada, mesmo fazendo parte, geralmente, de um mesmo contrato de prestação de serviços”, conclui.

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