Máquinas e o homem: a Inteligência Artificial e seus avanços no Brasil

Por Sergio Risola

A inteligência artificial aparece no cinema e na literatura, com enredos que debatem a própria existência humana com diferentes perspectivas e abordagens, mas sempre trazendo a ideia central de que as máquinas podem ocupar o lugar do homem. Alguns destas obras se tornaram clássicos da ficção científica como Star Trek (1966), Blade Runner (1981), Exterminador (1982), Matrix (1999) ou até mais recente como, Her (2013).

Apesar de incorporarem tecnologias ou imaginá-las, provocando e inspirando cientistas, engenheiros e empreendedores a desenvolver novos sistemas, a maioria dos filmes de ficção científica reflete mais a preocupação do ser humano com sua condição e existência do que com a inteligência artificial propriamente dita.

Uma preocupação que já começa a ser refletida em filmes, nas matérias jornalísticas e nas discussões da sociedade como um todo, é com relação ao futuro do trabalho, que engloba a mudança nas profissões e as funções que deixarão de existir, gerando a temida perda de empregos por parte das pessoas se elas não forem preparadas para as novas tecnologias. E, nesse sentido, o grande desafio é como fazer a qualificação das pessoas e prepará-las para esse novo mundo.

Brasil está se preparando?

A implementação da inteligência artificial no Brasil caminhava de forma lenta até pouco tempo atrás. Porém, com a pandemia, houve um processo de aceleração tecnológica e a necessidade de preparar e capacitar pessoas para o domínio tecnologias de IA. Assim, surgiram projetos de pesquisa e capacitação para que a aplicação da IA possa ser ampliada e seus benefícios melhores explorados, assim como seu potencial de modificar o funcionamento de organizações, da própria ciência e de toda a sociedade.

Diante deste cenário, a USP, a IBM e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), se uniram para intensificar esta evolução e criaram o Centro de Inteligência Artificial (C4AI) do Brasil, dedicado ao desenvolvimento de estudos e à pesquisa de ponta em IA para endereçar temas de grande impacto social e econômico. Ambientes como este visam consolidar e potencializar esse processo contínuo de investigação, pesquisa e capacitação das pessoas no domínio das tecnologias digitais.

Centro de Inteligência Artificial (C4AI) do Brasil

Localizado no campus da USP, em São Paulo, o C4AI focará inicialmente em desafios relacionados à saúde, meio ambiente, cadeia de produção de alimentos, futuro do trabalho e no desenvolvimento de tecnologias de Processamento de Linguagem Natural em português. Além destes desafios, serão criados três comitês de acompanhamento com o objetivo de promover temas com foco na indústria, ciência e sociedade.

O projeto está sob a coordenação do professor da Escola Politécnica (Poli), Fabio Gagliardi Cozman, com apoio estratégico da Pró-Reitoria de Pesquisa da USP, além do envolvimento de mais de 60 pesquisadores de 14 unidades de ensino e pesquisa da universidade.

O campus da USP, em São Carlos, também terá uma unidade do centro, voltada a capacitação de estudantes e profissionais, visando disseminar o conhecimento os benefícios da tecnologia para a sociedade.

IA e a Saúde

A saúde é um dos setores que mais tem tido avanços com soluções de IA, já que a ferramenta permite, por exemplo, a realização do primeiro contato com paciente e interações de forma humanizada, tirando dúvidas e até resolvendo pequenos problemas de forma rápida, sem a intervenção humana.

Ação de Robótica no Hospital das Clínicas (HC)

No Cietec, temos várias empresas que desenvolvem soluções voltadas para a IA, mas vale destacar o importante trabalho da NTU Software, startup de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) em tecnologias de robótica em nuvem, de entrega de aplicações de robôs sociais dotados de recursos da inteligência artificial para execução de tarefas de informação e comunicação, com foco na prevenção e redução dos riscos de contágio dos profissionais de saúde em ambiente hospitalar para o Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo.

Laboratório de robótica on-line (LRO)

Além desse importante projeto, a NTU investiu em um laboratório de robótica on-line (LRO) que conta com robôs virtuais de diferentes portes e funcionalidades; basta ter Internet para ter acesso a todos eles. O LRO possibilita que cada aprendiz tenha seu robô virtual para práticas individuais de aprendizagem, também traz um ambiente de colaboração e compartilhamento em que os alunos podem acessar um mesmo cenário virtual para práticas colaborativas de aprendizagem, além de ambiente de criação de situações problemas em cenários 3D e de práticas criativas no desenvolvimento aplicações robóticas para resolução de situações problemas.

O LRO pode ser usado em escolas, hospitais e clínicas pediátricas, pois permite escalar o uso dos robôs para além do espaço físico de forma segura, além de práticas de aprendizagem em disciplinas complementares. O laboratório pode ser o ambiente ideal para proporcionar o primeiro contato dos alunos com diferentes modelos virtuais de robôs físicos em situações de problemas reais.

Fome de dados

Flavio Yamamoto, CEO da NTU Software, entende que estamos vivenciando o avanço tecnológico da computação em nuvem, ciência de dados, internet das coisas, robótica, inteligência artificial, automação em larga escala. “Diante desse cenário de mudança tecnológica intensa, capacitar-se é um processo. No entanto, a IA tem fome de dados! Para dominar o desenvolvimento de soluções baseadas em IA, é fundamental estabelecer ações concretas para entender os processos de conversão de dados em insights acionáveis. Ou seja, são estratégicas as ações em promover iniciativas como a do Centro de Inteligência Artificial (C4AI) e em estabelecer formas de proteção aos dados do usuário”, ressalta.

IA e a LGPD

Não podemos deixar de mencionar a proposta da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) que traz uma mudança radical de enfoque desde a proteção da privacidade individual à promoção do compartilhamento de dados como um dever cívico. Evidentemente, há questões fundamentais a serem discutidas. Esse novo enfoque promove a criação de um mercado pan-europeu de dados pessoais por meio de um mecanismo chamado de Data Trusts (espécie de mecanismo que gerencia os dados das pessoas em seu nome e tem deveres fiduciários para com seus clientes). Ou seja, esse mecanismo permite que a União Europeia se torne um ator ativo na facilitação da utilização e monetização dos dados pessoais dos seus cidadãos.

Mesmo com o crescimento importante do setor, ainda há muito muito trabalho a ser feito até sua a consolidação no País, e o Cietec, a USP e tantas outras instituições estão organizando esforços para beneficiar esse ecossistema. A pandemia, de fato, foi prejudicial para diversos setores da economia, porém é inegável que para o setor tecnológico foi o impulso que faltava para o desenvolvimento de diversas soluções.

Para que o Brasil possa ter um final feliz e não repetir os roteiros trágicos de alguns filmes de ficção, a Inteligência Artificial precisa se tornar uma das principais vertentes de inovação nesse país, ganhando maior importância na agenda política e linhas de crédito e financiamento. As startups precisam sair da plateia e se tornarem protagonistas desse filme, desenvolvendo novas aplicações para automação de processos rotineiros e de prevenção de riscos para o serviço remoto nas empresas.

Até outro dia, eu também “evitava” o assunto IA, mas chegou o momento de TODOS NÓS investirmos em entender as noções básicas da IA e, na medida do possível, darmos passos para um entendimento maior, pois ninguém mais poderá fugir ou ignorar essa tecnologia. A HAUWEI, uma das empresas mais inovadoras e líder global em soluções de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC), que acaba de chegar ao Cietec e às suas startups, que o diga! E você, como vai encarar esse desafio?

Sergio Risola é diretor-executivo do Cietec.

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