Evento reúne vozes internacionais para discutir como tecnologia pode – e deve – servir às pessoas, e não o contrário
Em um contexto de rápida adoção de inteligência artificial, sensores urbanos e plataformas de dados nas cidades ao redor do mundo, uma pergunta se torna cada vez mais urgente: a tecnologia está sendo usada para resolver problemas reais, ou apenas para coletar informações dos cidadãos?
Esse é um dos eixos centrais do Smart City Business Brazil Congress 2026 (SCB-Br26), que acontece nos dias 16 e 17 de junho, no Expo Center Norte, em São Paulo, reunindo especialistas nacionais e internacionais para debater as tendências que vão definir o futuro das cidades.
Com foco nos eixos de inteligência artificial, sustentabilidade e governança, o congresso chega em um momento de inflexão para o setor urbano brasileiro. O programa federal Prodigita, financiado pelo BNDES e pelo BID com R$ 1 bilhão, já sinaliza que o capital para a transformação digital dos municípios está disponível. A questão agora é saber como usá-lo com responsabilidade.
Para Caio Bonilha, vice-presidente do Instituto Smart City Business America, o fio condutor de todas essas discussões é um só. “A coleta e o uso estratégico de dados são o que possibilita a construção de cidades mais eficientes, resilientes e humanas”, afirma. Bonilha pondera, no entanto, que não existe um modelo único aplicável a todos os municípios. “Os modelos têm que ser adaptados à realidade de cada cidade. Para isso, precisamos de um road map cujo ponto de partida depende do estágio de conectividade em que cada cidade se encontra.”
Cidades inteligentes, mas para quem?
A pergunta sobre quem se beneficia da tecnologia urbana está no centro da reflexão do futurista dinamarquês Mathias Behn Bjørnhof, diretor da Antecipate e um dos palestrantes do congresso. Para ele, o maior risco das cidades inteligentes não é técnico, é humano. “Uma cidade pode se tornar mais inteligente em sentido técnico enquanto se torna mais rasa em sentido humano”, alerta.
Bjørnhof aponta que o debate sobre cidades do futuro frequentemente subestima um fenômeno já em curso: a epidemia de solidão. “Pessoas que vivem em cidades estão muito mais expostas à solidão, mesmo estando cercadas de outras pessoas o tempo todo”, observa. Para ele, a tecnologia precisa ser avaliada pela capacidade de criar proximidade, participação e tempo de qualidade – não apenas eficiência de fluxo.
O futurista também é crítico de projetos que começam pela tecnologia e depois buscam um problema para justificá-la. “A diferença está em se um projeto começa com a vida urbana ou com o teatro urbano. Os projetos que geram impacto real começam com um atrito vivido: moradia inacessível, falta de acesso a serviços, isolamento social. Só então perguntam qual papel a tecnologia deve – e não deve – desempenhar.”
Um exemplo concreto desse equilíbrio vem de Barcelona, na Espanha, onde o programa Superblocks reorganizou quarteirões inteiros para reduzir o tráfego de carros, ampliar espaços de convivência e melhorar a qualidade do ar. A tecnologia existe como suporte, mas o bem-estar das pessoas é o objetivo central. O modelo influenciou debates urbanos em todo o mundo e é frequentemente citado como referência de governança orientada por dados com foco humano.
Governança como condição, não como detalhe
Se Bjørnhof questiona o propósito da tecnologia, o espanhol Ibon Zugasti, diretor da Prospektiker e integrante do Millennium Project, alerta para os riscos concretos de adotá-la sem uma estratégia de governança clara. Com experiência em prospectiva estratégica para governos europeus, ele observa que a maioria das cidades ainda não tem sequer um plano de adoção de IA. E as poucas que têm raramente olham além do horizonte imediato.
“As desigualdades não aparecem por acidente: são resultado de decisões precoces, ou da ausência delas”, afirma Zugasti. Entre os riscos que ele identifica estão a perda de controle democrático por meio da “automatização do poder”, a amplificação de desigualdades por vieses algorítmicos e a dependência tecnológica que corrói a soberania urbana.
Para o especialista, a solução passa por decisões estruturais que as cidades precisam tomar agora: definir para que a IA será – e não será – usada; estabelecer critérios de equidade como parte do design dos sistemas, não como correção posterior; e garantir que haja responsáveis humanos identificáveis por cada decisão algorítmica. “As cidades que conseguirem que a IA contribua para o desenvolvimento urbano sustentável serão aquelas que tomarem decisões antes que o próprio avanço tecnológico as tome por elas”. Ele entende que as cidades devem aplicar ferramentas de previsão estratégica para antecipar a evolução futura da IA, e tentar fazê-la contribuir para a redução das desigualdades (e não para aumentá-las). “Por isso, a partir da economia social, criamos o novo ASETT Think Tank, um hub que conecta academia, foresight e laboratório social para desenhar estratégias bem-sucedidas com uma visão de longo prazo”.
Na prática: o que o congresso coloca em debate
As reflexões dos especialistas encontram terreno fértil na programação do SCB-Br26. Uma das mesas temáticas discutirá justamente como estruturar ecossistemas de dados federados e soberania digital para cidades inteligentes – tema diretamente ligado aos alertas de Zugasti sobre dependência tecnológica. Outra sessão abordará o uso de gêmeos digitais e planejamento preditivo como ferramentas para transformar dados urbanos em decisões estratégicas de alto impacto.
Na agenda de sustentabilidade, uma mesa de diretrizes tratará da estruturação de Planos Locais de Ação Climática (PLACs) – resposta direta à intensificação de eventos climáticos extremos que já pressiona municípios de todo o país. A mobilidade urbana também terá espaço amplo, com painéis dedicados a temas como tarifa zero, mobilidade ativa, digitalização do transporte público e o projeto do VLT para requalificação do centro de São Paulo.
Já o debate sobre governança ganha contornos práticos em reuniões estratégicas voltadas à gestão de contratos de cidades inteligentes, à formação de consórcios intermunicipais e à transformação da máquina pública – dimensões muitas vezes ignoradas quando o foco recai apenas sobre a tecnologia em si.
Esses temas estarão em pauta nas plenárias e mesas temáticas do SCB-Br26, promovido pelo IEG Brasil (Italian Exhibition Group), que reunirá 120 palestrantes e 300 debatedores ao longo de 16 reuniões estratégicas, com expectativa de 5 mil congressistas.
Serviço
Smart City Business Brazil 2026
Data: 16 e 17 de junho
Local: Expo Center Norte – Pavilhão Branco
Endereço: Entrada principal – Rua José Bernardo Pinto, 333 – Vila Guilherme, SP.
Mais informações e inscrições: Link

