O Exército brasileiro terá o primeiro blindado armado com sistema antidrone. Trata-se de um velho conhecido das forças blindadas pelo mundo afora: o Cascavel. Os dois protótipos foram apresentados na semana passada pela Akaer, responsável pela modernização dos blindados, um deles já com o novo equipamento.
Trata-se da retomada de um programa que prevê equipar sete viaturas de um lote de experimentação doutrinária a fim de que sejam concluídos os testes. A crise da Akaer, empresa recentemente adquirida pelo Grupo Edge, e cortes orçamentários haviam paralisado os trabalhos.
“Conseguimos resgatar o programa, obviamente com injeção de capital da gente e usando a cadeia de suprimentos do grupo”, afirmou Rodrigo Torres, Diretor Financeiro do Grupo Edge. O objetivo é modernizar 89 desses blindados de reconhecimento fabricados na década de 1980 pela antiga Engesa – a frota total do Exército está em torno de 400. O valor estimado do contrato de três anos pode passar dos US$ 100 milhões.
Os dois primeiros veículos passaram pelos testes de pista e vão agora para o teste de selva no campo de provas do Exército. A previsão é que eles sejam entregues em novembro. Os blindados terão sistemas ópticos inteligentes, automação no sistema de tiro e um novo motor também automatizado, além de lentes e câmeras de precisão e a integração do míssil anticarro Max 1.2 AC, fabricado pela SIATT, outra empresa que faz parte do Grupo Edge.
“A gente apresentou ontem (quarta-feira, dia 26) uma solução que até os Centauros (blindado de combate) não tem, que é uma solução contra drone. O que aconteceu na Ucrânia? Drones pequenos e de custo irrelevante atingiram tanques caríssimos e os destruíram. Por isso temos de ter uma efetiva proteção antidrone”, afirmou Torres. Um dos protótipos já está equipado com essa solução e o plano da Akaer é entregar os sete primeiros Cascavéis com a proteção.
Além do Brasil, a Akaer pretende oferecer o pacote de modernização dos blindados aos demais países que adquiriram as 1,2 mil unidades vendidas para o exterior, entre eles Angola, Haiti, Iraque e Kwait. “Temos uma gama de vários países que já mapeamos. A ideia é usar essa plataforma e o próprio governo brasileiro para nos ajudar a exportar essa tecnologia”, contou Torres.
A Akaer não é a única empresa brasileira que está criando soluções antidrone para o Exército. A ARES está trabalhando na modernização de seu sistema de armas para os blindados Guarani do Exército. E planeja uma nova versão do sistema de armas remotamente controlado UT30BR2 com um kit antidrone. Tudo como parte do programa de forças blindadas é um dos projetos estratégicos do Exército.
Nesta segunda-feira, dia 31, o Comando Logístico do Exército (Colog) assina com o Consórcio Iveco -Oto Melara o contrato para a compra de sete viaturas blindadas de combate sobre rodas (VBC Cav MSR 8×8) Centauro II-BR, do lote de experimentação doutrinária. Equipado com canhão de 120 mm, ele é o blindado de combate, o mais poderoso do tipo na América do Sul.
Ao todo, o Brasil comprou 98 Centauros em um contrato de € 900 milhões. As duas primeiras unidades que devem receber o blindado são a 11.ª Brigada de Infantaria Mecanizada, com sede em Campinas e o 18.º Regimento de Cavalaria Mecanizado (18.º RC Mec), com sede em Boa Vista (Roraima). O novo lote deve estar operacional até 2028 e se soma aos dois primeiros já entregues pela Iveco.
Defesa cibernética e propileno
Ainda na semana passada, o Comando de Defesa Cibernética Centro (ComDCiber) assinou com o Grupo Edge um acordo para a criação do Centro de Excelência em Defesa Cibernética (COE) para treinamento e desenvolvimento de doutrina, proteção e monitoramento para a defesa de estruturas críticas. O centro deve ficar em Brasília e contará com árabes e brasileiros. “Vamos trazer o aprendizado que tivemos na guerra com o Irã, onde a quantidade de ataques cibernéticos foi até maior do que o de mísseis”, afirmou Torres.
O investimento deve chegar perto de US$ 6 milhões. No mesmo dia, o Grupo Edge inaugurou a nova fábrica da Siatt. Ela deve fazer os motores de propulsão sólida dos mísseis e foguetes do grupo. “É uma fábrica sistema moderna e com uma capacidade única na América Latina: ela vai ter produzir 150 toneladas de propileno por ano na fase 1, chegando a 300 toneladas na fase 3″, afirmou Torres. Trata-se de um movimento estratégico.
A empresa terá uma instalação em Camaçari (BA) para começar a fazer a base do propileno sólido, que será finalizado em São Paulo. Sem o combustível ou sem turbinas próprias, nenhum fabricante pode negociar contratos sem o risco de se ver afetado por embargos ou vetos estrangeiros.
A Siatt pensa não só em abastecer os mísseis Mansup ER, de alcance estendido, da Marinha, mas também os mísseis de cruzeiro produzidos pelos Emirados Árabes e os previstos em um contrato europeu de míssil. A fábrica, com sede em Caçapava (SP), deve empregar nessa fase 200 trabalhadores e é resultado de um investimento de US$ 25 milhões nessa fase e deve exigir outros US$ 25 milhões até a fase três.
Ao todo, o Grupo Edge já investiu US$ 700 milhões em três empresas no Brasil, com mais de mil funcionários, e deve contratar mais 200 para a Akaer no próximo ano e investir outros US$ 25 milhões, o que deve fazer dele um dos maiores grupos de defesa do País. O grupo deve fazer a Siatt e a Akaer trabalhar associadas e espera faturar cerca de R$ 700 milhões em 2027, a maior parte com exportações, até chegar a R$ 1,5 bilhão até 2029.

