Drones são usados para ‘delivery’ de drogas e celulares e dasafiam estados

Na tarde de 31 de março de 2022, uma cena que já se tornou comum em presídios brasileiros se repetiu na penitenciária gaúcha de Charqueadas. Pelo ar, um drone, controlado de um barco às margens do rio Jacuí, entregava, no pátio da unidade, drogas para detentos membros dos “Manos”, um dos principais grupos criminosos do estado. Um levantamento feito pelo GLOBO em 17 estados aponta que, desde 2020, aconteceram por dia no país quase duas ocorrências de drones em presídios, entre avistamentos e interceptações.

Foram os guardas de Charqueadas que viram a entrega aérea da droga e alertaram a Brigada Militar. Os policiais ao observarem as idas e vindas do “delivery” identificaram a origem do drone em uma embarcação no rio que margeia a penitenciária. A pé e de carro, os agentes acompanharam o barco até ele atracar. Na abordagem, os policiais encontraram com os suspeitos dois drones e 654g de maconha, distribuídos em 17 porções a serem entregues do outro lado do muro. A dupla foi condenada à prisão por tráfico meses depois.

Em 2022, outras 872 ocorrências com drones foram registradas em penitenciárias do Rio Grande do Sul. O montante, repassado pela Polícia Penal gaúcha, contempla avistamentos, apreensões e lançamentos de ilícitos. Passados dois anos, os números no estado continuam elevados: em 2023 foram 606 ocorrências e, em 2024, 717. Nos primeiros meses de 2025 contaram-se 368 casos. Em junho deste ano, a Polícia Civil deflagrou a Operação Rasante para combater um grupo responsável por realizar ações como essas nos presídios de Charqueadas e Canoas:

“Eles eram bem organizados: tinha o cara da manutenção, o operador do drone e o que dirigia o carro. Às vezes, ele nem parava o veículo, só diminuía a velocidade e o drone já levantava voo”, relatou o delegado Rodrigo Caldas, que investiga o caso.

No dia 17 de junho, mandados de busca e apreensão foram cumpridos nos municípios de Canoas, Viamão e Porto Alegre contra o grupo. Nos endereços, os policiais encontraram drones desmontados, equipamentos de rádio, além de kits já montados para serem levados para dentro dos presídios, contendo uma faca, um fogareiro elétrico, além de latas de bebida. Em operações anteriores, os policiais já confiscaram munições, drogas, celulares e até um fuzil AR-15 desmontado.

Os itens são embalados e revestidos de modo a não se danificarem no delivery clandestino. Nas estruturas montadas para o transporte aéreo, os bandidos também contam um sistema de contrapesos, para manter a estabilidade do drone.

“Geralmente, eles também fazem parte daquele grupo criminoso que recebe a encomenda, e eles são pagos por isso”, comentou Caldas.

Tendência pós-pandemia

Na avaliação da professora de Sociologia da Universidade Federal de Pelotas (Ufpel) Simone Gomes, que pesquisa o tema, apesar dos drones comerciais de pequeno porte já não serem uma novidade há tempos, o ponto de virada no uso desses equipamentos se deu a partir de 2020.

“É difícil dizer quando começou, mas sabemos quando se intensificou: durante a pandemia. Foi uma mudança muito grande em como as drogas e armas entram nos presídios. E o que causou isso foi a restrição às visitas”, explicou.

Assim, com menos pessoas entrando nas penitenciárias no período de distanciamento social, a alternativa aérea se tornou atrativa aos criminosos. Segundo a professora, entre os principais itens transportados estão as drogas, armas de pequeno porte e, principalmente, os celulares. O horário preferido dos bandidos para atuar é durante a noite, diz Gomes.

“Os drones são mais rápidos, e você pode colocar os faccionados em um raio grande de distância para fazer as entregas”, disse a professora, que acrescenta. “São drones bem caros, de R$ 50 mil e até R$ 100 mil, mas que podem fazer até 10 voos por noite”.

Os casos não se restringem ao Rio Grande do Sul. Em Mato Grosso, em cinco anos, foram apreendidos 292 drones que sobrevoaram unidades penitenciárias estaduais, segundo a Secretaria de Estado de Justiça (Sejus-MT). De 2022 a 2024, as ocorrências registradas caíram de 54 para 25. Recentemente, elas voltaram a aumentar. Apenas nos sete primeiros meses de 2025 foram 50 casos. Segundo o secretário de Justiça, o delegado Vitor Hugo Bruzulato Teixeira, os episódios se concentram na Penitenciária Central, em Cuiabá, e na Penitenciária de Mata Grande, em Rondonópolis:

“Percebemos um aumento significativo. É uma nova modalidade que vem sendo intensificada”, disse Teixeira, que diz que o estado tem feito investimentos para combater a atividade. “Estamos melhorando os procedimentos operacionais dos nossos policiais penais e adquirindo uma série de tecnologias para impedir a entrada e o acesso dos drones”.

Outros estados também precisam lidar com o problema. Ano passado, policiais penais cearenses abateram oito drones. Em 2025, o número já subiu para 19. Em Minas Gerais, no intervalo de cinco anos, foram 50 deles apreendidos em presídios. No Pará, nenhuma aeronave foi derrubada, mas os policiais penais já contabilizaram 30 ocorrências de voos desde 2022. Há ainda casos em estados como São Paulo, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Santa Catarina.

A resposta ao desafio traz custos aos cofres públicos. Há dois anos, o governo mineiro adquiriu por R$ 1,4 milhão um kit anti-drone. O sistema é composto pelo RF Patrol, dispositivo capaz de identificar invasões ao espaço aéreo, e o Drone Gun, uma arma capaz de derrubar objetos invasores ao interferir em sua comunicação. Equipamentos semelhantes também foram comprados por São Paulo ao custo de R$ 2,8 milhões. No mês de maio, três kits, que custaram R$ 4,9 milhões, foram entregues ao governo gaúcho. Em junho, três suspeitos foram presos tentando mandar drogas para dentro da Penitenciária Estadual de Bento Gonçalves.

“As tecnologias anti-drone são uma mitigação. Uma arma dessas custa milhares de reais”, disse Simone Gomes, que entrevistou policiais penais e funcionários do sistema prisional em sua pesquisa. “Os agentes penitenciários falam que não dão conta de lidar com a quantidade de drones que observam de noite”.

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