Se a IA consegue criar um vídeo falso, quem garante que uma imagem de segurança é verdadeira?

Por Vinicius Romano, analista de sistemas, CEO da Camerite e especialista em tecnologia voltada para a segurança eletrônica


Durante décadas, a frase “está gravado” encerrava qualquer discussão. A imagem era a prova. Na era dos vídeos sintéticos, isso deixou de ser automático, e a pergunta que mais ouço de gestores públicos é direta: como ter certeza de que o que a câmera mostra realmente aconteceu?

O tema saiu do campo técnico e entrou na pauta do país neste ano eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) atualizou em março as regras de propaganda para o uso de inteligência artificial e, em 1º de setembro, definiu por 5 votos a 2 os critérios para caracterizar uma deepfake: conteúdo sintético com grau de realismo ou verossimilhança que cria ou altera imagem, voz ou manifestação de uma pessoa.

A norma também mantém vedada a publicação de novos conteúdos sintéticos com imagem ou voz de candidatos entre 72 horas antes e 24 horas depois do fim da votação. Quando a Justiça precisa criar regras para separar o real do fabricado, é sinal de que a confiança na imagem está em jogo. E o que vale para a campanha eleitoral vale, com ainda mais peso, para a segurança.

Uma imagem de câmera pode apontar um suspeito, esclarecer um acidente, sustentar uma decisão administrativa ou embasar uma investigação. Se a sociedade passa a desconfiar de tudo o que vê em vídeo, a gravação perde a força justamente onde ela é mais necessária. Há ainda o efeito inverso, igualmente perigoso: quando qualquer imagem pode ser acusada de falsa, até a prova verdadeira passa a ser contestada.

A imagem deixou de ser prova? Não acredito nisso, mas ela deixou de valer sozinha. Uma imagem passa a ter valor pelo que a cerca: de onde veio, quando foi gravada, por qual equipamento e se o sistema estava funcionando naquele momento. Isso muda o que o poder público deve exigir. Como a Camerite tem presença relevante em projetos de segurança pública, vejo essa responsabilidade de perto. Não basta instalar câmeras: é preciso confiar na origem e na integridade do que elas registram.

É por isso que tratamos a saúde da rede como parte da credibilidade da prova. Nossa plataforma armazena as imagens em nuvem e mantém o histórico de funcionamento de cada câmera, com dias, horários e quantidade de quedas. Uma lacuna explicada reforça a confiança no que foi registrado; uma lacuna ignorada a enfraquece. Saber que uma câmera estava offline em determinado horário é tão importante quanto ter a imagem de quando ela estava ativa.

A inteligência artificial também pode ser aliada nessa discussão. A mesma tecnologia que fabrica falsificações ajuda a rastrear a realidade. Com o Hórus, nossa plataforma de IA, é possível localizar pessoas e veículos e reconstruir trajetos entre câmeras. Um deslocamento coerente, registrado por vários pontos independentes, é muito mais difícil de forjar do que um vídeo isolado.

Na prática, isso significa fazer perguntas simples na hora de contratar: quem opera a plataforma, onde as imagens ficam guardadas, quem pode acessá-las e como o sistema registra falhas e interrupções. São respostas que o gestor público deve ter na mão antes de qualquer imagem virar elemento de decisão.

Defendo três princípios para quem contrata videomonitoramento: origem rastreável, integridade preservada e sistema auditável. É o mínimo que o setor público deve exigir de qualquer fornecedor. Na era da imagem sintética, a prova não vem só do que se vê. Vem da confiança em quem registrou, guardou e cuidou da imagem. É nesse ponto que o setor de segurança precisa liderar o debate, e não apenas acompanhá-lo.

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