Por Joaquín Aznar, Diretor Executivo da Verisure Brasil
A segurança privada avança no Brasil, atrelada à necessidade do consumidor. Deixou de ser apenas um segmento de prestação de serviços para se tornar um dos mercados mais dinâmicos da economia nacional. O avanço da digitalização, a evolução das tecnologias, a conectividade entre dispositivos e a crescente demanda por proteção estão redefinindo um setor que, durante décadas, evoluiu de forma incremental e que hoje passa por uma transformação estrutural. Reflexo disso é que o mercado nacional de segurança eletrônica atingiu a marca histórica de R$ 16 bilhões em faturamento, impulsionado massivamente pela demanda nos setores empresarial e de condomínios residenciais, de acordo com o Panorama ABESE.
Essa mudança acontece em um momento relevante. O país convive com elevados índices de criminalidade patrimonial, como apontou a mais recente edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, revelando que roubos e furtos (como de celulares e veículos) somam cerca de 1 milhão de ocorrências anuais. Ao mesmo tempo, empresas e consumidores incorporam rapidamente novas ferramentas ao cotidiano. O resultado é uma alteração profunda nas expectativas dos clientes, em que reagir a um incidente já não é mais suficiente.
O que se espera é que a tecnologia seja capaz de prever riscos, reduzir vulnerabilidades e acelerar a tomada de decisão diante de qualquer situação, ainda que seja uma suspeita. Logo, a principal mudança está, justamente, no conceito de segurança. Durante muitos anos, a lógica predominante era instalar dispositivos para registrar uma ocorrência ou inibir uma tentativa de invasão. Hoje, o foco passa a ser a inteligência aplicada à prevenção. Sensores, câmeras, automação, análise de imagens em tempo real e monitoramento remoto deixam de funcionar como soluções independentes para formar ecossistemas integrados capazes de identificar padrões, cruzar informações e gerar respostas cada vez mais rápidas.
Esse movimento acompanha uma tendência global. A consultoria MarketsandMarkets, traz que o mercado mundial de segurança inteligente deverá movimentar mais de US$ 50 bilhões até o fim da década, impulsionado justamente pela convergência entre inteligência artificial, internet das coisas (IoT), computação em nuvem e análise de dados. A segurança privada passa, assim, a integrar um dos maiores ciclos de inovação tecnológica da atualidade.
No Brasil, essa transformação ocorre sobre uma base social bastante desafiadora. A violência ainda é uma das principais preocupações da população. Ao mesmo tempo, cresce o entendimento de que, apesar de fundamental, a proteção não depende exclusivamente da atuação do poder público. É necessário cobrar uma maior atuação, mas também é possível agir por conta própria. Empresas, condomínios e famílias têm buscado soluções capazes de reduzir riscos antes que uma ocorrência aconteça.
Essa mudança de comportamento produz efeitos importantes para toda a cadeia produtiva. Fabricantes de equipamentos, desenvolvedores de software, empresas de monitoramento, operadoras de telecomunicações e fornecedores de serviços digitais passaram a atuar de maneira muito mais integrada. O setor de segurança privada tornou-se, na prática, um ambiente de intensa inovação tecnológica.
Nesse novo contexto, a tecnologia deixou de representar uma promessa futura para assumir um papel operacional. Ferramentas já conseguem distinguir eventos rotineiros de comportamentos potencialmente suspeitos, reduzir significativamente alarmes indevidos, priorizar atendimentos críticos e fornecer informações qualificadas às centrais de monitoramento. O ganho não está apenas na eficiência tecnológica, mas na capacidade de oferecer respostas mais rápidas justamente quando segundos fazem a diferença.
Ao mesmo tempo, a evolução tecnológica amplia um debate igualmente importante: o da confiança. Quanto mais conectados se tornam os sistemas de segurança, maior também é a responsabilidade das empresas em relação à proteção de dados, privacidade e governança. A conformidade com a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), a adoção de protocolos robustos de cibersegurança e a transparência sobre o uso das informações deixam de ser diferenciais competitivos para se tornarem requisitos indispensáveis para qualquer empresa do setor.
Outro aspecto que merece atenção é a democratização dessa tecnologia. Recursos que até poucos anos atrás estavam restritos a grandes corporações ou imóveis de alto padrão começam a alcançar pequenas empresas e residências. Essa expansão tende a acelerar à medida que modelos de negócios baseados em serviços tornam as soluções mais acessíveis e reduzem a necessidade de grandes investimentos iniciais por parte dos consumidores.
Ao mesmo tempo, cresce a percepção de que a segurança não pode ser encarada como um produto isolado, a ser adquirido apenas em momentos de crise. Ela passa a fazer parte da infraestrutura permanente de residências e organizações, assim como já aconteceu com internet, energia ou conectividade, como exemplos. Levantamento global da Genetec mostra que mais de 70% das empresas pretendem manter ou ampliar seus investimentos em segurança física. Logo, a proteção deixou de ser um gasto eventual para se tornar um componente permanente da estratégia dos negócios.
Essa nova realidade exige também uma mudança de postura das empresas que atuam no setor. Investimentos contínuos em pesquisa e desenvolvimento, atualização tecnológica, formação de profissionais especializados e integração entre plataformas tornam-se fatores decisivos para sustentar o crescimento de longo prazo. A inovação é uma condição de permanência no mercado.
É nesse cenário que a indústria vive uma renovação importante de seus portfólios, incorporando soluções mais inteligentes, videomonitoramento avançado, proteção ampliada dos pontos vulneráveis e plataformas capazes de integrar diferentes tecnologias em uma única experiência para o usuário. Mais do que lançamentos pontuais, essas evoluções representam uma resposta às novas demandas da sociedade e refletem a maturidade de um setor que passou a competir também pela qualidade da experiência oferecida aos clientes.
Nos próximos anos, a segurança privada deverá consolidar sua posição como um dos segmentos mais intensivos em tecnologia da economia brasileira. O sucesso desse processo dependerá da capacidade de combinar inovação, responsabilidade no tratamento de dados, excelência operacional e foco permanente na prevenção.
No fim das contas, o maior avanço não será o surgimento de um novo equipamento ou de uma nova funcionalidade. Será a capacidade de construir um modelo de segurança mais inteligente, conectado e preventivo, no qual tecnologia e atuação humana trabalhem de forma complementar para proteger aquilo que realmente importa: as pessoas.

