Por Bruna Boner, CEO da Globalweb, uma das principais empresas de TI do Brasil
No Brasil e no mundo, o uso de biometria facial explode como ferramenta de segurança e cibersegurança. Bancos, aeroportos, escolas, redes sociais e até forças policiais adotam o reconhecimento facial como resposta rápida a fraudes, terrorismo e crimes. Globalmente, o mercado de reconhecimento facial já vale US$ 8,58 bilhões em 2025 e deve mais do que duplicar para US$ 18,28 bilhões até 2030, com crescimento anual de 16,33%.
No país, a tecnologia impulsiona projetos públicos, como o Smart Sampa, em São Paulo, que já ajudou a identificar centenas de foragidos e movimentou cerca de US$ 60 bilhões em transações seguras em 2025. A expansão vem junto com leis, como a LGPD, que trata dados biométricos como sensíveis, e o ECA Digital, que passou a exigir verificação de idade online desde março de 2026. Mas essa corrida por “modernidade” esconde fragilidades graves: erros sistemáticos, violações de privacidade e um viés que amplifica desigualdades.
O problema não é a tecnologia em si, mas o uso amplo e sem critério. Estudos do National Institute of Standards and Technology (NIST), agência governamental dos EUA voltada à administração de tecnologia, mostram que sistemas de reconhecimento facial falham mais em mudanças naturais do rosto, especialmente em crianças e adolescentes. A acurácia cai drasticamente com o tempo: entre 3 e 18 anos, as proporções faciais mudam tanto que erros de identificação viram rotina. Em testes recentes, algoritmos têm mean absolute error de até 4 a 5 anos para jovens de 16 a 17 anos, e a precisão despenca para menos de 10% em estimativas dentro de mais ou menos três anos. Isso significa que uma foto de hoje pode não bater com a de amanhã ou, pior, confundir uma criança com um adulto em verificações etárias. No dia a dia, óculos, chapéu, cabelo solto, maquiagem ou luz ruim pioram tudo: taxas de falha sobem, filas crescem e usuários frustrados acabam recorrendo a métodos menos seguros.
Aqui no Brasil, o cenário é ainda mais preocupante. Um monitor registra 376 projetos ativos de reconhecimento facial, vigiando quase 40% da população, 83 milhões de pessoas, com investimentos públicos de R$ 160 milhões. Mais da metade das abordagens policiais baseadas nessa tecnologia resulta em identificações equivocadas. O viés racial é escandaloso: taxas de erro até 100 vezes maiores para pessoas não brancas, segundo estudos de referência. Em 2019, mais de 90% das prisões por engano eram de negros. Casos reais mostram o impacto: uma mulher grávida em São Paulo foi apontada como criminosa, levando a estresse e parto prematuro; um idoso jardineiro passou 10 horas na delegacia por ser confundido com estuprador. Pessoas parecidas, gêmeos ou rostos semelhantes, geram confusões impossíveis de resolver só com ajustes. E em escolas, onde o uso cresce (como no Paraná, monitorando quase 1 milhão de crianças), o risco é maior: dados faciais de menores não podem ser trocados, e vazamentos já são comuns.
Costumo dizer que reconhecimento facial não é uma camada infalível de segurança. É uma ferramenta poderosa, mas limitada, e, quando aplicada sem transparência ou testes em populações reais, vira risco maior que solução. A LGPD exige consentimento e finalidade clara, mas muitos sistemas operam sem auditoria externa, reproduzindo vieses humanos, como algoritmos treinados em rostos brancos do Hemisfério Norte falham mais em peles escuras, mulheres e crianças brasileiras.
Para se ter uma ideia, em uma amostra de 30 milhões de reconhecimentos, a biometria facial permite a passagem de 300 mil impostores e a biometria palmar de apenas 24.
O debate não é parar tudo. É exigir maturidade: regulamentar com inteligência, testar viés em diversidade real (não só dados globais), e priorizar biometrias mais amplas e estáveis que não dependam só do rosto visível. Porque proteger a privacidade, especialmente de menores, não é burocracia. É garantir que a tecnologia sirva à sociedade, não a exponha.
O Brasil tem hoje a oportunidade de liderar uma abordagem mais responsável na identidade digital. Com a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) fortalecida, podemos avançar na proteção de dados sem abrir mão da inovação. Mas isso só será possível se reconhecermos abertamente as limitações da biometria facial quando usada de maneira indiscriminada.
O futuro da segurança e da cibersegurança no país não pode se basear em uma tecnologia que já demonstra, em números e casos reais, suas fragilidades. Proteger a sociedade exige mais do que velocidade de identificação: exige clareza, responsabilidade e o compromisso de que a tecnologia sirva às pessoas e não o contrário.
Fonte: Exame

